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24 de mar. de 2026

O Fio da Navalha

Seria perfeitamente normal um autor justificar seu livro num prólogo, num prefácio ou mesmo numa introdução, dependendo da finalidade e do gênero da obra. Cada um tem um objetivo específico, mas todos servem para preparar o leitor para a história ou o tema principal. Mas não é o caso de O Fio da Navalha, onde o competentíssimo e polivalente autor britânico William Somerset Maugham resolve fazê-lo na própria narrativa de seu enredo. E o escritor, neste caso, é o próprio protagonista de O Fio da Navalha

O crash da Bolsa de Nova Iorque, em 1929, muda também o roteiro da obra. A ponto de Maugham perguntar sobre seu riquinho personagem: “Quem poderia negar que Elliott, aquele ultra esnobe, era também o mais bondoso, mais delicado e generoso dos homens?”. A bela história de uma mulher forte, com relacionamento com o autor e com um dos personagens, torna-se um capítulo tão especial que conota como um conto dentro da obra. Faz-nos, sem dúvida, espairecer um pouco da sufocante história dos personagens centrais. 

Então, muda-se o cenário mais frequente de Paris para a Riviera Francesa e dá-se o encaminhamento à apoteose do romance. E, por aí, o autor vai até o Oriente e concede-nos reflexões um pouco superficiais sobre fé, religiosos, o bem e o mal, reencarnação, razão, verdade e liberdade. E, em tudo, até aqui, vai deixando-nos detalhes de passagens de sua vida pessoal, como rastros de uma autobiografia dissimulada. 

Este é um livro que se inicia com um personagem que deseja tornar-se célebre e se encerra com outro ao qual distinguir-se aos olhos do público lhe seria sumamente desagradável. Nessa transmutação, o autor faz uma exploração filosófica da busca por sentido, trazendo-nos alguns personagens complexos, num texto de altos e baixos em termos de sequência narrativa. 

Assim, Maugham apresenta-nos uma obra com dramaticidade, comicidade, suntuosidade, espiritualidade e reflexões vivenciais, e que, por seu clima novelesco, já ganhou algumas versões cinematográficas. Mas, com certeza, neste livro nada se compara à profundidade de sua obra prima Servidão Humana (vide comentário em https://contracapaladob.blogspot.com/2016/10/nos-e-nossos-cativeiros.html . 

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Valdemir Martins 
04.01.2026

Fotos: 1. Capa do livro; 2. A casa em Chicago; 3. O crash da Bolsa de Nova Iorque; 4. O restaurante em Paris; 5. O guru indiano; 6. A Riviera Francesa; 7. O autor William Somerset Maugham.

 

8 de mar. de 2026

A Bíblia: uma pequena grande fábula familiar.

Já nas primeiras linhas percebe-se a qualidade literária da obra A Bíblia do consagrado húngaro Péter Nádas. Não se trata aqui da leitura do considerado livro sagrado, mas sim de como um exemplar deste desencadeia toda um história deslumbrante. E num rompante do protagonista surge a violência e a inconsequência que irá marcá-lo neste breve romance.
A famosa frase "mente desocupada é oficina do diabo" aplica-se adequadamente a esta obra. Apesar de não constar na Bíblia Sagrada em nenhum de seus evangelhos – contrariando o que dizem popularmente -, é sugerido em Filipenses, Mateus, Romanos e Josué. O protagonista, um pré-adolescente sem cuidados e orientação educacional e com a mente permanentemente desocupada, preenche-a com besteiras e insegurança.

Dessa forma, em agressão permanente com pessoas mais frágeis ao seu redor, inflige atos destrutivos a elas inconsequentemente, a ponto de usar um exemplar da bíblia como arma e pretexto. E assim, Nádas constrói uma narrativa cruel sobre o despertar sexual de um menino e sobre desejo, desigualdade social e política.

Além da extraordinária narrativa onde apresenta a descoberta da sexualidade, Nádas abrilhanta ainda mais a obra transmitindo tensão permanente em sua leitura, revelando a inesperada capacidade do menino em ser violento, cruel e surpreendentemente bondoso. Aqui fica evidente, também, a denuncia do autor sobre a elite comunista destoando drasticamente da absoluta pobreza do famélico povo no regime comunista húngaro ou de qualquer outro regime comunista.

Péter Nádas é um dos mais importantes escritores húngaros em atividade. E se coloca o título de A Bíblia em sua obra é por que ela é a chave do inesperado desfecho desta pequena grande fábula familiar.

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Valdemir Martins
07.12.2025

Fotos: 1. Capa do livro; 2. Cachorro morto no jardim; 3. Menino na cama; 4. A bíblia sobre o móvel; 5. O autor Péter Nádas.