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21 de jun. de 2026

Viaje pela polêmica Terra Americana.

A grande polêmica em torno da obra, o fato de ser considerada um dos melhores lançamentos de 2020 pela imprensa especializada norte americana e por ser qualificada como “extraordinária” por Stephen King, além de sua inclusão no seleto clube do livro da Oprah Winfrey, levou-me à leitura de Terra Americana , da ianque Jeanine Cummins. Não me arrependi. A obra começa impactante com toda a dramaticidade de um massacre em Acapulco.

A partir daí, entramos num espetacular suspense de fuga e sobrevivência, mostrando a real e atual força dos cartéis do narcotráfico que atuam pelas Américas e seus modos de agir. A obra constitui-se num thriller moderno brando, estruturado em flashbacks que dão consistência ao enredo. A base de tudo consiste no luto e na sobrevivência.

Seus protagonistas, duas irmãs adolescentes, um menino prodígio de oito anos e sua prudente e zelosa mamãe, cruzam o México num périplo maluco em busca da saída desapercebida e ilegal do país. Seus múltiplos personagens passantes são cativantes e de uma riqueza fabulosa, com fortes perfis psicológicos, os quais Cummins entremeia de forma bastante real e lógica na trama que tem em seu vilão um fértil enquadramento psicológico que oscila entre um poeta, um cavalheiro e o pior dos carrascos.

Assim como os protagonistas, sentimos os perigos nas sombras e há um peso que nos agarra e arrasta-se em  nossa mente por toda a leitura. Descrições de violência são o parâmetro para dar consistência às fugas de migrantes a partir do México para os Estados Unidos. São pessoas vítimas principalmente dos brutais narcotraficantes. E dessa forma a autora denuncia tantas barbaridades e irregularidades desses cartéis e de gangues mais poderosas que seus governos, espalhadas pela América Latina, em especial no México.

Mas o livro tem passagens encantadoras como a descrição de uma aldeia em Honduras, arrematada de forma belíssima pela autora com “e é assim que ele sabe que Rebeca é mágica, pois pode transportá-lo por milhares de quilômetros até seu próprio vilarejo nas montanhas apenas com o som de sua voz.”

O livro apresenta uma narrativa muito envolvente, levando o leitor a viajar e vivenciar a vida dos protagonistas de forma a não querer interromper a leitura. Trata-se de personagens que sofrem dificuldades inconcebíveis e que conseguem superar traumas extraordinários, em passagens de heroísmo e generosidade.

Milhares de migrantes, pessoas fugindo da violência e da pobreza, situações de suspense e de terror e um clímax robusto e agitado transformaram este excelente livro numa polêmica causa de discussão – principalmente dos ciumentos autores mexicanos que nunca se dignaram a escrever sobre o assunto – envolvendo a “autenticidade de uma história mexicana escrita por uma  estadounidense”, num inútil debate sobre apropriação cultural sem sentido. Todos se esquecem que é apenas uma peça de ficção e que, portanto, não exige esta ou aquela nacionalidade de seu autor.

O grande valor literário desta obra é a capacidade que Cummins tem de envolver o leitor em sua perfeita narrativa, clara, objetiva, despida de pretensões. Seu livro é viciante; diferente, surpreendente e emocionante em seus pontos mais estratégicos. Simples e magistral. Repetindo o mestre Stephen King, considero-o um livro extraordinário. Recomendo!

Valdemir Martins

02.02.2026

Fotos. 1. Capa do livro; 2. A orla de Acapulco; 3. Mosteiro que abriga fugitivos; 4. Viagem no teto do trem; 5. A fronteira no deserto; 6. O terrível terreno do deserto americano; 7. O descanso do grupo; 8. A autora Jeanine Cummins.

25 de abr. de 2026

Como se dança o Sátántangó, O Tango de Satã?

Nada como um texto solto, ligeiro, que conduz o leitor a concluir as situações sem que estejam no texto; uma forma muito agradável de participar do enredo. É dessa forma que o romancista húngaro László Krasznahorkai – Prêmio Nobel de Literatura de 2025  – faz a abertura de sua primeira e consagrada obra Sátántangó (ou O Tango de Satã).

Num clima claustrofóbico, algo fantástico e chuvoso, muito chuvoso, o autor desenvolve seu texto na maior parte das vezes em blocos extensos e sólidos (um único parágrafo por capítulo), neles arrolando descrições e diálogos em sequência, sem espaços ou parágrafos. Isto leva provavelmente a maioria dos leitores a ter uma leitura mais lenta, pois é-lhes exigida maior atenção para compreender o seguimento do escrito; quem fala o quê, para quem e em que situação.

Neste estilo literário denso e inovador, Krasznahorkai desperta a atenção dos apreciadores de qualidade literária em lugar da leitura fácil que muitas vezes leva o leitor a assimilar uma história sem se aperceber – ou por omissão do autor, ou por não perceber - dos instrumentos e técnicas literárias colocadas em evidência no texto. Aqui, através de uma narrativa extremamente grotesca, ele infiltra e entremeia nas entrelinhas uma história racional de uma mundo pós apocalíptico no rescaldo do que sobrou de um vilarejo húngaro depois do esfacelamento da União Soviética e seu comunismo.

Diálogos de dois personagens com autoridades de um batalhão enquadram-se num ensaio surrealista, tamanha são as disparidades e incongruências entre perguntas, respostas, reações e comentários. E tudo encerrado numa narrativa maravilhosa de  Krasznahorkai: “Sob uma luz filtrada por nuvens densas, a cidade respirava através de um véu; nas ruas soprava um vento inamistoso, casas, calçadas, caminhos se encharcavam desprotegidos debaixo da chuva que despencava. Velhas sentavam-se atrás das janelas, contemplavam por cortinas rendadas a escuridão...”.

Noutro trecho, o leitor poderá “sentir” o mau cheiro exalado pela imundície na casa de um médico alcoólatra aposentado e sentir-se sufocado e umedecido pela chuva permanente que inunda o romance, com os personagens vagueando constantemente pelos lamaçais; tudo resumido pelo próprio autor na breve descrição de como é o início do outono naquele lugar. Seus estranhos personagens, sem exceção, são todos desajustados.

Fascinantemente sombrio, o romance traça um paralelo interessante sobre a decrepitude de alguns personagens e do cenário da história diante das intempéries, da falta de propósitos, da vida vulgar e dos destroços do vilarejo deixados pelo governo comunista. O absurdo se destaca principalmente nas divagações filosóficas inócuas, todavia muito bem construídas.

Um dos capítulos mais fortes e aterrorizantes é o que trata de duas crianças e um gato. Suas situações degenerativas trazem-nos assassinato, golpe, roubo, abuso e torturas física e psicológica, como também um suicídio. Além, evidentemente, da escuridão, da chuva, da lama e do frio.

Em determinado momento da leitura, pode-se concluir que o autor faz reflexões lógicas ou absurdas, usando de forma maniqueísta seus personagens. Nos encontros com mais de uma pessoa o texto deságua ou resvala no inconcluso, truncado ou ilógico. Mas a partir do instante em que surge um personagem de liderança, idolatrado - o satã do título -, o enredo começa a tomar forma de uma história onde Krasznahorkai coloca em evidência o agrupamento das principais figuras perdedoras que compõem o livro.

De leitura difícil, pois exige concentração e assimilação correta das situações, Sátántangó é um romance de 1985 e só foi publicado por aqui, pela primeira vez, em 2022 pela Companhia das Letras.

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Valdemir Martins

24.01.2026

Fotos: 1. Capa do livro; 2. A cidade abandonada; 3. Os três líderes na estrada; 4. O menino vadio e seu gato; 5. A reunião no bar; 6. O velório da menina; 7. A fuga da cidade; 8. O autor László Krasznahorkai.

Obs: As fotos são takes do filme baseado no livro, com a incrível duração de sete horas.

24 de mar. de 2026

O Fio da Navalha

Seria perfeitamente normal um autor justificar seu livro num prólogo, num prefácio ou mesmo numa introdução, dependendo da finalidade e do gênero da obra. Cada um tem um objetivo específico, mas todos servem para preparar o leitor para a história ou o tema principal. Mas não é o caso de O Fio da Navalha, onde o competentíssimo e polivalente autor britânico William Somerset Maugham resolve fazê-lo na própria narrativa de seu enredo. E o escritor, neste caso, é o próprio protagonista de O Fio da Navalha

O crash da Bolsa de Nova Iorque, em 1929, muda também o roteiro da obra. A ponto de Maugham perguntar sobre seu riquinho personagem: “Quem poderia negar que Elliott, aquele ultra esnobe, era também o mais bondoso, mais delicado e generoso dos homens?”. A bela história de uma mulher forte, com relacionamento com o autor e com um dos personagens, torna-se um capítulo tão especial que conota como um conto dentro da obra. Faz-nos, sem dúvida, espairecer um pouco da sufocante história dos personagens centrais. 

Então, muda-se o cenário mais frequente de Paris para a Riviera Francesa e dá-se o encaminhamento à apoteose do romance. E, por aí, o autor vai até o Oriente e concede-nos reflexões um pouco superficiais sobre fé, religiosos, o bem e o mal, reencarnação, razão, verdade e liberdade. E, em tudo, até aqui, vai deixando-nos detalhes de passagens de sua vida pessoal, como rastros de uma autobiografia dissimulada. 

Este é um livro que se inicia com um personagem que deseja tornar-se célebre e se encerra com outro ao qual distinguir-se aos olhos do público lhe seria sumamente desagradável. Nessa transmutação, o autor faz uma exploração filosófica da busca por sentido, trazendo-nos alguns personagens complexos, num texto de altos e baixos em termos de sequência narrativa. 

Assim, Maugham apresenta-nos uma obra com dramaticidade, comicidade, suntuosidade, espiritualidade e reflexões vivenciais, e que, por seu clima novelesco, já ganhou algumas versões cinematográficas. Mas, com certeza, neste livro nada se compara à profundidade de sua obra prima Servidão Humana (vide comentário em https://contracapaladob.blogspot.com/2016/10/nos-e-nossos-cativeiros.html . 

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Valdemir Martins 
04.01.2026

Fotos: 1. Capa do livro; 2. A casa em Chicago; 3. O crash da Bolsa de Nova Iorque; 4. O restaurante em Paris; 5. O guru indiano; 6. A Riviera Francesa; 7. O autor William Somerset Maugham.

 

8 de mar. de 2026

A Bíblia: uma pequena grande fábula familiar.

Já nas primeiras linhas percebe-se a qualidade literária da obra A Bíblia do consagrado húngaro Péter Nádas. Não se trata aqui da leitura do considerado livro sagrado, mas sim de como um exemplar deste desencadeia toda um história deslumbrante. E num rompante do protagonista surge a violência e a inconsequência que irá marcá-lo neste breve romance.
A famosa frase "mente desocupada é oficina do diabo" aplica-se adequadamente a esta obra. Apesar de não constar na Bíblia Sagrada em nenhum de seus evangelhos – contrariando o que dizem popularmente -, é sugerido em Filipenses, Mateus, Romanos e Josué. O protagonista, um pré-adolescente sem cuidados e orientação educacional e com a mente permanentemente desocupada, preenche-a com besteiras e insegurança.

Dessa forma, em agressão permanente com pessoas mais frágeis ao seu redor, inflige atos destrutivos a elas inconsequentemente, a ponto de usar um exemplar da bíblia como arma e pretexto. E assim, Nádas constrói uma narrativa cruel sobre o despertar sexual de um menino e sobre desejo, desigualdade social e política.

Além da extraordinária narrativa onde apresenta a descoberta da sexualidade, Nádas abrilhanta ainda mais a obra transmitindo tensão permanente em sua leitura, revelando a inesperada capacidade do menino em ser violento, cruel e surpreendentemente bondoso. Aqui fica evidente, também, a denuncia do autor sobre a elite comunista destoando drasticamente da absoluta pobreza do famélico povo no regime comunista húngaro ou de qualquer outro regime comunista.

Péter Nádas é um dos mais importantes escritores húngaros em atividade. E se coloca o título de A Bíblia em sua obra é por que ela é a chave do inesperado desfecho desta pequena grande fábula familiar.

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Valdemir Martins
07.12.2025

Fotos: 1. Capa do livro; 2. Cachorro morto no jardim; 3. Menino na cama; 4. A bíblia sobre o móvel; 5. O autor Péter Nádas.

16 de fev. de 2026

Contar: a revelação do Círculo dos Dias.


Como costuma fazer na maioria de seus romances históricos, o competentíssimo galês Ken Follett escreve o Círculo dos Dias como se estivesse vivido no tempo do contexto do enredo. Neste caso, em plena época da Stone Age, há 2500 anos AEC, período pré-histórico crucial na evolução humana, conhecido por ser a era em que os primeiros sapiens desenvolveram ferramentas de pedra.

E sua leitura, leva-nos a acreditar que estamos vivenciando o famoso Stonehenge, na Planície de Salisbury, Wiltshire, na Inglaterra, um dos monumentos megalíticos mais sofisticados, misteriosos e famosos do mundo antigo.

Follett coloca-nos, como sempre, no meio de inúmeros personagens marcantes e cativantes, e diante de – queiramos ou não – diversos protagonistas, numa revolucionária forma literária de construção de personagens, situações e épocas. Ponto marcante em seus romances históricos, a ficção envolve fatos científicos  e lendários numa demonstração evidente de profunda pesquisa para elaborar sua obra.

A forma de contagem ou controle de tempo e quantidade dos povos daquela época são fatos marcantes no livro, evidenciando quanto de impossível se torna acreditar que a civilização desenvolveu-se sem contar até que os babilônios, egípcios, hindús ou os árabes criassem sistemas numéricos. Aqui, através de sacerdotisas e do sistema solar assimila-se os princípios para a formação do calendário, como também para caçar, plantar, curtir couro, transportar grandes volumes, marcenaria e ferramentaria, por exemplo, claro, tudo de uma forma rudimentar, mas bastante correta para aqueles tempos.

Esta é certamente a obra mais simples de Follett. Sem grandes pretensões e sem aprofundar-se muito no contexto, conta-nos ficcionalmente o que poderia ter sido a história da origem e criação do Stonehenge: um círculo de pedras que provavel e possivelmente  representa um calendário, baseado na duração dos movimentos do Sol e da Lua.

Para tanto, define-se por reportar tribos que, segundo suas pesquisas, teriam habitado a região à época. O convívio entre tribos de criadores de gado, plantadores, caçadores, mineradores e inúteis é apresentado de forma bastante real, assim como seus costumes sociais, de trabalho e religiosos.

Como tradicionalmente o faz em seus trabalhos, o autor envolve-nos afetivamente em alguns personagens e situações, suas qualidades e mazelas, suas lutas e desafios, seus amores e aventuras. O trabalho artesanal e o sexo, predominantemente livre, são algo em destaque nas sociedades por ele desenvolvidas.

Apesar de ser  uma história arrebatadora sobre como sonhos grandiosos podem transformar vidas e destinos, a obra apresenta-se um pouco decepcionante pelo fato de, repentinamente, encontrar soluções fáceis para questões que se apresentavam difíceis. Na realidade, Follett priorizou destacar os possíveis costumes das tribos à época do que apresentar maiores detalhes da construção do monumento, fato que tornaria maçante a sua narrativa.

Este é, certamente, um livro que deixa a desejar em se tratando da grandiosidade do autor. Fraco literariamente, não me deixou a impressão de estar lendo um Ken Follett. Porém, talvez seja mais uma prova de quanto Follett é eclético e competente.

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Valdemir Martins

05.12.2025

Fotos: 1. Capa do livro; 2. Localização na Inglaterra; 3. Ferramentas feitas com sílex; 4. Plantadores da época; 5. O Sol nascendo no Círculo dos Dias; 6. O autor em visita ao Stonehenge; 7. O autor Ken Follett.

25 de jan. de 2026

Afinal, O Segredo Final.

Este sem dúvida é o livro mais místico do norte americano Dan Brown. Em O Segredo Final (O Segredo dos Segredos em Portugal), sexto livro da série com o protagonista Robert Langdon, o autor usa de forma inédita um elemento místico vivo e não apenas um símbolo, como em suas obras anteriores. Já no prólogo, brinda-nos com um relato surreal, demonstrando seu brilhante trabalho de pesquisa que embasa suas obras.

Apesar de iniciar seu terremoto já na abertura do livro, ele surpreende-nos com um romance do simbologista, abrindo a obra com o mesmo na cama ao lado de uma pesquisadora. Tudo normal, não fosse a incrível trapalhada em que ele se mete na cidade de Praga. Por conseguinte, ele adentra à ambientação de fantasia pela primeira vez em seus trabalhos e aciona simultânea e paralelamente cinco personagens em suas próprias histórias.

De forma sempre magistral, Brown vai interligando as histórias, aventando a possibilidade de surgirem ainda mais histórias. O romance fica extremamente dinâmico, ao seu bom estilo, com ótimas reviravoltas e uma exuberante demonstração de conhecimentos científicos do autor. Tudo, envolvendo o que há de mais moderno em tecnologia e pesquisa psico-científica, tendo como base os estudos sobre a consciência e experiências de não morte.

Num exagero de apresentações – e até discussões – de conceitos noéticos e metafísicos, Brown beira o aborrecido e o confuso face às inúmeras e intrincadas concepções e críticas referentes ao assunto. Tudo num imbróglio de religião, ciência, filosofia, história, ação e romance envolvendo ou citando celebridades que viveram epifanias científicas e revelações espirituais. Do lado oposto, o autor coloca a racionalidade política da agência norte-americana CIA, o que converte a trama em algo mais tumultuado e lhe confere o suspense.

Brown é um exuberante pesquisador da simbologia, arte, religião e sociedades secretas, assim como Ken Follett o é no campo do romance histórico. Ele pode não brilhar em termos literários, mas é um magnífico contador de histórias ficcionais de suspense entremeadas às realidades humanas, razão de seu sucesso.

Estranhamente, próximo ao final do livro, como se quisesse prolongar o volume do mesmo, Brown inicia os capítulos repetindo uma ação que já havia narrado. Apesar de ser uma obra de ficção, Brown exagera nas situações improváveis e, às vezes até, impossíveis. Não obstante a trama muito bem elaborada, o livro é cansativo e “não termina nunca”. O autor estica a história ao máximo. Mesmo sendo uma história simples, que se passa em dois ou três dias, o livro consiste em um calhamaço de 560 páginas.

Se você é fã de Dan Brown e de seu protagonista premium Robert Langdon, tenha paciência e curta a obra. Para mim, depois de ler seu brilhante “Origem”, este “O Segredo Final” fica na decepção.

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Valdemir Martins

06.11.2025

Fotos: 1. Capa do livro; 2. A cidade de Praga; 3. A medieval Ponte Carlos; 4. A Biblioteca Klementium, considerada a mais bonita do mundo; 5. O Relógio Astronômico de Praga; 6. O autor Dan Brown.

28 de dez. de 2025

Os ricos protagonistas de Gente Pobre.

Criando um complexo romance social pioneiro na Rússia dos czares, Fiódor Dostoiévski brilha já em sua primeira obra denominada Gente Pobre. Um romance elaborado com técnica literária epistolar tão envolvente quanto outros do gênero, como Frankenstein, A Cor Púrpura, Carrie a estranha, Drácula, As Ligações Perigosas, Os Sofrimentos do Jovem Werther, entre outros de primeira linha.

Um protagonista extremamente dedicado abre a obra divagando numa carta sua declaração de profundo amor pela  destinatária. Pelo exagero, esta reclama, mas corresponde por absoluto respeito ao mandatário. E nesse tom, Dostoiévski vai revelando um enredo de gente pobre, literalmente. Os dois protagonistas, em suas atitudes e falas, descrições e anseios, vão revelando-nos suas condições, fazendo-nos sentir a injustiça social.

Neste verdadeiro confessionário epistolar, o autor expõe sua imensa capacidade criativa e literária. Com frequência e freneticamente, faz-nos refletir impiedosamente. Não há como escapar das reflexões diante do que nos é exposto. E que torna a obra esplendorosa para o leitor autorreflexivo e para o apreciador de alto nível literário.

Numa linguagem concisa, fluente e objetiva, Dostoiévski vai erigindo um quadro realista da situação das pessoas e famílias pobres de São Petersburgo em suas condições e aflições. O autor impacta-nos com a crueza de suas descrições sobre condições sub-humanas da pobreza de seus personagens. Torna-se impossível não se sensibilizar com a vida de agruras das pessoas que passam pela obra.

Em seu fundamental estilo de ir revelando seus protagonistas aos poucos em sua delicada montagem de um personagem, Dostoiévski procede de maneira a não esquecer de dar-lhes também uma forte personalidade. Apesar do contrassenso de pessoas tão necessitadas e incultas expressarem-se tão bem, o autor concede-lhes os dons da percepção, da inteligência, do bom senso e da astúcia.

Contudo, este forte e vigoroso romance impacta-nos pelo crescente desespero de forma magistral. A pobreza acaba enfraquecendo o vigor, a mente e a razão do protagonista, o qual ingressa num turbilhão de pessimismo onde atrai tudo de ruim e atrapalhado ao derredor. Em contrapartida, a protagonista brinda-nos com uma exultante e delicada narrativa outonal – na Rússia, claro - com uma vigorosa carga de lirismo. Isso, num intruso e inesperado lapso de felicidade diante de tantos infortúnios.

No clímax da obra Dostoiévski concede-nos um arranjo que só a literatura é capaz de permitir: a transformação inversa dos protagonistas ao tempo em que revela seus âmagos de uma estirpe real de gente desvalida. E assim, brinda-nos com a oportunidade de avaliar e refletir sobre o egoísmo, a fraqueza e a indolência dos muitos que são pobres. E revela-nos a riqueza literária dos protagonistas de Gente Pobre.

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Valdemir Martins

20.10.2025

Fotos: 1. Capa do livro; 2. As inúmeras cartas trocadas; 3. O bairro pobre. 4. Os escriturários funcionário públicos; 5. O inverno rigoroso de São Petersburgo; 6. O autor Fiódor Dostoiévski.

5 de dez. de 2025

As Brasas e As Velas Ardem até ao Fim.

Os governos totalitários sempre nos negaram acesso a obras literárias incrivelmente grandiosas e belas. Os casos são muitos, principalmente os proibidos pela Inquisição Católica, pela censura real britânica, por preconceitos sexuais e ideológicos, pelo radicalismo islâmico e, principalmente, pelos países ditatoriais de esquerda a partir do século passado. Que me lembre, isso aconteceu com O Amante de Lady Chatterley, O Retrato de Dorian Gray, A Origem das Espécies, 1984, Comédia em Tom Menor, Lolita, Os Versos Satânicos, Arquipélago Gulag, Doutor Jivago, Dias Malditos, Ulisses e Dom Casmurro entre muitos outros.

Mais recentemente, descobri outra grandiosa obra penalizada: As Brasas (título brasileiro) ou As Velas Ardem até ao Fim (título português), do escritor e jornalista Sándor Márai - nascido na Hungria, numa cidade hoje pertencente à Eslováquia -, e proibido pelo regime do autoritário regente Miklós Horthy, durante o domínio comunista soviético na Hungria após a Segunda Guerra Mundial. Comparado por alguns estudiosos ao mestre alemão Thomas Mann, Márai foi obcecado pelo cuidado em descrever corretamente o que queria expressar. 

Nesta obra o autor brinda-nos com a história de dois amigos que foram inseparáveis na infância, apesar de suas diferenças sociais. Quarenta e um anos após o sumiço de um deles, ambos reencontram-se para travar um duelo ferrenho de palavras, entremeado pela sombra da falecida esposa de um deles . E aí reside o fulcro de todo o brilhantismo deste livro e do talento de Márai. Ao lê-lo, de imediato percebe-se sua qualidade literária que nos traz um texto denso - não pesado - em conteúdo, criatividade, expressão poética e caracterização temporal. 

Um enredo aparentemente simples, de contexto profundo por abordar temas complexos como amizade, paixão, traição e honra, de uma forma delicada, porém penetrante. Ao tratar de relações de pessoas a partir do afeto, Márai mergulha nos comportamentos dos dois protagonistas, observando a multiplicidade de significações dos mesmos, brindando-nos com situações e diálogos brilhantes. Após a juventude e por vinte e um anos afastados, a dupla reencontra-se depois de vivências díspares durante esse distanciamento. Seu reencontro é o âmago desta obra. 

A história do talento de Sándor Márai é exemplo de como um grande escritor, mesmo com uma extensa obra publicada e aclamada, pode ser injustamente colocado no ostracismo em função de convicções ideológicas e posicionamento político. Mas, para a sorte de quem aprecia grandes obras, Márai foi resgatado. E esta suntuosa obra literária felizmente está à disposição. Basta lê-la e sentir o calor da escrita do talentoso Márai, seja pelas brasas, seja pelas velas! 

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Valdemir Martins 

24.08.2025

Fotos: 1. Capa do livro; 2. Capa da edição portuguesa; 3. O salão da mansão; 4. O reencontro; 5. O autor Sándor Márai.