
Não é sempre que se tem o
privilégio de ler um clássico traduzido brilhantemente por Carlos Drummond de Andrade. É o caso do livro Fome (Sult), do esquecido escritor norueguês Knut Hamsun (Prêmio Nobel de 1920), da Geração Editorial, relançado
em 2009 depois de décadas esgotado no país.
Não entendo norueguês, assim como
não conheço o texto original, mas aqui temos a oportunidade de ler um clássico
consagrado nesta tradução (do francês) de Drummond num português exuberante,
dele assaz adequado. Além de um texto de Hamsun bastante rico literariamente, o
prazer de “ler” concomitantemente um Drummond é algo muito especial, que se
sente e se saboreia, inexplicável em letras.
Apesar de sua extrema penúria, o
protagonista sem nome – talvez um jornalista ou escritor desempregado – sentia
fome pela manhã ao fugir da locadora do quartinho, mas deslumbrava-se com a
luminosidade da alegre e fresca manhã e punha-se a cantar, levando-o a esquecer
os problemas: “Vagabundo na manhã alegre, passeando aqui e ali minha
despreocupação, entre os outros felizes mortais, deixava as coisas correrem. O
céu era claro, sem nuvens; e nenhuma sombra em minh’alma.”.
Narrado na primeira pessoa, o
livro transforma-se num monólogo de um homem inseguro, dispersivo, sonhador e
perdulário, apesar de pobre, confessando seus pensamentos desordenados e suas peripécias
flanando pelas ruas da antiga cidade de Cristiania (hoje Oslo, capital da
Noruega). Indolente, nosso protagonista não vacila em perturbar determinadas
pessoas, por prazer ou por mendicância, e sempre culpando Deus por sua penúria.
Vive de eventuais textos vendidos
a jornais, escritos com muita dificuldade diante de suas penúrias e dispersões,
e de contribuições fortuitas de pessoas conhecidas. Nas intermitências dessas
quantias, passa por períodos absurdos de fome, chegando a roer gravetos e comer
o próprio bolso do paletó.
Em suas cismas, o famélico
protagonista sentia-se tão profundamente desgostoso e fatigado por toda essa
vida miserável que chegou ao ponto de desistir e entregar-se à má sorte. Chegou
a esse ponto, evidentemente, por sua teimosia, excesso de honestidade e fraco
caráter. Da forma como Hamsun construiu e desenvolveu seu personagem, chegamos
a momentos de considerá-lo um palerma, muitas vezes estúpido em suas decisões
absurdas. Mas essa é a força do protagonista que estrutura toda a obra,
tornando-a única em sua força literária.

Apesar dessa potencialidade, o
livro apresenta aspectos estranhos ao contexto, como o fato do famélico, apesar
de controverso, ser um homem culto e inteligente, cujas atitudes denotam o
contrário; seu passado é insinuado como uma pessoa de alguma posse e de boas e
muitas relações, sem esclarecer como chegou a uma situação pessoal tão penosa;
e, apesar de seu mau aspecto, magérrimo, maltrapilho e sujo, conquista uma
mulher com alguma intimidade. Outras situações, de resolução bastante óbvia ou
lógica, não ocorrem.
De qualquer forma, trata-se de
ficção e não de perfeição, e como tal revolucionou a literatura da época
(1890), com Knut Hamsun – autor de mais de 40 livros - sendo mentor do neo-romantismo,
tendo influenciando importantes autores como Thomas Mann, Máximo Górki, Kafka,
Hemingway, Miller e Brecht, entre outros.
Leitura altamente recomendada
para quem aprecia boa literatura.
Valdemir Martins
05.03.2026
Fotos: 1. Capa do livro; 2. Cidade de Cristiania (atual Oslo); 3. O protagonista no banco de jardim (ilustração da capa da edição da editora Relógio D'Água); 4. O quartinho molambento; 5. Vista da cidade de Cristiania na época; 6. O autor norueguês Knut Hamsun.