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14 de set. de 2026

A terrível Criança 44

Mais que a destruição, as mortes e os ferimentos, as punições e as restrições à vida das pessoas, o que a guerra traz de pior é com certeza a fome. E, com esse enfoque, Tom Rob Smith dá início ao seu clássico moderno, o primoroso e assustador romance histórico Criança 44, sobre uma das persistentes tragédias da Ucrânia – aqui, o Holodomor* -, causadas via de regra pelos russos. Desta vez no século 20, durante o governo totalitarista e comunista do sanguinário Stálin.

Assim como a fome extrema, a narrativa de Smith é devastadora. De forma clara e evidente narra fatos do cotidiano soviético, em plena vigência do regime utópico bolchevique, inicialmente durante a investigação de um crime. A fantasia social e política é tão grotesca, quanto esclarecedora sobre como os agentes comunistas pensavam e acreditavam fielmente nesse sistema.

Numa linguagem crua e direta, Smith incumbe-se de revelar o porquê de uma ditadura utópica ter mantido-se no poder por tantos anos sob a auréola da “Revolução Popular” – claramente sem a participação do povo –, comandada por um ideólogo e por um psicopata, este,  responsável “inocente” pela morte do ideólogo Lênin, pois não
queria compartilhar o poder. Seu totalitarismo sanguinário baseou-se no medo e no terror, como conclui o protagonista: “Liev tinha ouvido falar em presos que ficaram semanas abandonados e médicos cuja única função era estudar a dor. Ele passou a acreditar que essas coisas não existiam por acaso. Existiam por alguma razão, por um bem maior. Existiam para aterrorizar. O terror era necessário. Protegia a Revolução. Sem ele, Lenin teria caído. Sem ele, Stalin teria caído. O medo era cultivado. O medo fazia parte do trabalho.”.

Smith retrata com extrema realidade o clima de sufocante insegurança em que vivia o povo soviético sob Stálin, onde até os componentes do sistema viviam inseguros, com medo da própria sombra. Nesse ambiente tenso e ansioso, até um pai podia denunciar um filho, ou uma filha denunciar uma mãe, correndo o risco de todos, inclusive a família (pais, avós, filhos e netos) serem condenados aos gulags enregelantes ou sumariamente à morte por traição ao regime e à pátria.

Então, em meio às denúncias da selvageria de um regime totalitarista, vão surgindo nos detalhes as sombras de uma história de suspense também regada a brutalidades e injustiças. Gera, então, uma investigação que reserva surpresas para o leitor, bem como traz um toque mais suave ao romance, evidenciando vários aspectos do amor entre os personagens. O protagonista, por exemplo, um eficiente e radical – ou até  brutal - agente do governo soviético, descobre que precisou acreditar no amor para se humanizar. Fato este que, apesar de todos os percalços, irá conduzir ao desfecho da história.

Um romance forte, contundente e um importante documento de denúncia, apesar de esconder em todo o seu enredo uma difícil – quase despercebida – história de amor.

Valdemir Martins

28.06.2026

* O Holodomor (termo ucraniano que significa "morrer de fome") foi uma grande fome provocada pelo regime soviético do ditador Stalin entre 1932 e 1933, que resultou num genocídio de milhões de ucranianos.

Fotos: 1. Capa do livro; 2. Os personagens principais; 3. A Lubjanka, o palácio da tortura; 4. A floresta onde eram encontradas as crianças; 5. O autor Tom Rob Smith.

26 de ago. de 2026

O Rouxinol mostra-nos que o passado possui uma clareza que não vemos no presente.

Já li muitas obras que tratam ou apresentam perdas, mas este livro é uma obra prima de perdas. Falo de O Rouxinol, da competente norte-americana Kristin Hannah, autora best seller dos grandes jornais americanos. Um livro de memórias. E que, no melhor delas, vêm-nos as perdas a se infiltrar e a dominá-las. E as perdas na vida são irrecuperáveis, porém inesquecíveis.

O livro, numa pungente e belíssima história, é uma sequência de perdas que se inicia concomitante à Segunda Guerra Mundial, na horripilante e sanguinária invasão da França pelos nazistas. É nesse contexto que se desenrola a história de uma família que já vinha sendo então  destroçada desde a Primeira Grande Guerra.

A qualidade literária é plana, porém num texto de qualidade, bem estruturado, criativo e muito bem escrito. Envolvente, captura nossa atenção e ansiedade, prendendo-nos à leitura. Trata-se de um romance histórico notável, descrito numa deslumbrante linguagem cinematográfica.

Este livro que vendeu quase cinco milhões de exemplares traduzidos para 45 idiomas, apresenta-nos duas protagonistas. Irmãs de vidas radicalmente diferentes, heroínas cada uma à sua forma, afastadas, mas unidas pelo amor fraternal, familiar, consanguíneo. A principal delas é inspirada na história real de outra paladina, uma belga chamada Andrée de Jongh, que comandou o salvamento de mais de oitocentos pilotos, possibilitando que retornassem a voar para os aliados, combatendo novamente os nazis, assim tratados os alemães na obra.

Hannah tem o poder literário de construir personagens muito cativantes, conseguindo levar-nos até a simpatizar com um inimigo das protagonistas, este, um capitão nazista. Com a mesma força, choca-nos nas narrações das massacrantes caças e sanguinários e devastadores tratamentos aos judeus franceses. 

E, da mesma forma, apresenta-nos o impressionante e surpreendente trabalho dos grupos da Resistência Francesa, comandada por De Gaulle, a partir de Londres, em luta não só com os alemães, mas também contra os colaboracionistas franceses do submisso governo local sediada no sul do país, na cidade de Vichy.

Conforme os Aliados avançavam reconquistando territórios franceses, mais os alemães retaliavam com torturas brutais e morte de civis, nacionalistas e guerrilheiros locais. Hannah descreve-nos alguns desses episódios durante o romance, detalhando a tremenda brutalidade dos nazis numa feroz e selvagem reação ao princípio de sua derrocada. Dramáticos, chocantes.

Um livro ao tempo em que empolgante, belíssimo, é muito realista e por vezes pode levar às lágrimas leitores mais sensíveis. Uma obra de força descomunal naquilo que revela – em detalhes – sobre as verdades de uma guerra. Seus heróis e heroínas, suas incontáveis vítimas inocentes e seus monstruosos algozes. Um registro íntimo e perturbador da Segunda Guerra Mundial no âmago da França.

Valdemir Martins

04.04.2026

Fotos: 1. Capa do livro; 2. A fuga de Paris; 3. Racionamento e distribuição de alimentos; 4. A destruição das cidades no interior da França; 5. Membros da Resistência Francesa; 6. O Capitão nazista; 7. A autora Kristin Hannah.

11 de ago. de 2026

Fome: um brilhante clássico norueguês num rico texto em português

Não é sempre que se tem o privilégio de ler um clássico traduzido brilhantemente por Carlos Drummond de Andrade. É o caso do livro Fome (Sult), do esquecido escritor norueguês Knut Hamsun (Prêmio Nobel de 1920), da Geração Editorial, relançado em 2009 depois de décadas esgotado no país.

Não entendo norueguês, assim como não conheço o texto original, mas aqui temos a oportunidade de ler um clássico consagrado nesta tradução (do francês) de Drummond num português exuberante, dele assaz adequado. Além de um texto de Hamsun bastante rico literariamente, o prazer de “ler” concomitantemente um Drummond é algo muito especial, que se sente e se saboreia, inexplicável em letras.

Apesar de sua extrema penúria, o protagonista sem nome – talvez um jornalista ou escritor desempregado – sentia fome pela manhã ao fugir da locadora do quartinho, mas deslumbrava-se com a luminosidade da alegre e fresca manhã e punha-se a cantar, levando-o a esquecer os problemas: “Vagabundo na manhã alegre, passeando aqui e ali minha despreocupação, entre os outros felizes mortais, deixava as coisas correrem. O céu era claro, sem nuvens; e nenhuma sombra em minh’alma.”.

Narrado na primeira pessoa, o livro transforma-se num monólogo de um homem inseguro, dispersivo, sonhador e perdulário, apesar de pobre, confessando seus pensamentos desordenados e suas peripécias flanando pelas ruas da antiga cidade de Cristiania (hoje Oslo, capital da Noruega). Indolente, nosso protagonista não vacila em perturbar determinadas pessoas, por prazer ou por mendicância, e sempre culpando Deus por sua penúria.

Vive de eventuais textos vendidos a jornais, escritos com muita dificuldade diante de suas penúrias e dispersões, e de contribuições fortuitas de pessoas conhecidas. Nas intermitências dessas quantias, passa por períodos absurdos de fome, chegando a roer gravetos e comer o próprio bolso do paletó.

Em suas cismas, o famélico protagonista sentia-se tão profundamente desgostoso e fatigado por toda essa vida miserável que chegou ao ponto de desistir e entregar-se à má sorte. Chegou a esse ponto, evidentemente, por sua teimosia, excesso de honestidade e fraco caráter. Da forma como Hamsun construiu e desenvolveu seu personagem, chegamos a momentos de considerá-lo um palerma, muitas vezes estúpido em suas decisões absurdas. Mas essa é a força do protagonista que estrutura toda a obra, tornando-a única em sua força literária.

Apesar dessa potencialidade, o livro apresenta aspectos estranhos ao contexto, como o fato do famélico, apesar de controverso, ser um homem culto e inteligente, cujas atitudes denotam o contrário; seu passado é insinuado como uma pessoa de alguma posse e de boas e muitas relações, sem esclarecer como chegou a uma situação pessoal tão penosa; e, apesar de seu mau aspecto, magérrimo, maltrapilho e sujo, conquista uma mulher com alguma intimidade. Outras situações, de resolução bastante óbvia ou lógica, não ocorrem.

De qualquer forma, trata-se de ficção e não de perfeição, e como tal revolucionou a literatura da época (1890), com Knut Hamsun – autor de mais de 40 livros - sendo mentor do neo-romantismo, tendo influenciando importantes autores como Thomas Mann, Máximo Górki, Kafka, Hemingway, Miller e Brecht, entre outros.

Leitura altamente recomendada para quem aprecia boa literatura.

Valdemir Martins

05.03.2026

Fotos: 1. Capa do livro; 2. Cidade de Cristiania (atual Oslo); 3. O protagonista no banco de jardim (ilustração da capa da edição da editora Relógio D'Água); 4. O quartinho molambento; 5. Vista da cidade de Cristiania na época; 6. O autor norueguês Knut Hamsun.

23 de jul. de 2026

A História de Shuggie Bain

Com detalhes suficientes sobre a pobreza em Glasgow, na Escócia, e uma riqueza de descrições sobre a personalidade dos personagens, o livro A História de Shuggie Bain, do escocês americano Douglas Stuart, vencedor do The 2020 Booker Prize, marca a estreia do autor na literatura.

Numa linguagem crua e realista, Stuart desenvolve uma vigorosa história de cunho autobiográfico, apresentando o relacionamento profundo, construído no sofrimento, entre um filho solitário e sua mãe amorosa e bêbada. A trama desenrola-se no difícil período da economia britânica comandada por Margareth Tatcher nos anos de 1980, revelando as dificuldades dos mais pobres, personagens desta trama, onde os menores níqueis eram valorizados para se poder sobreviver sem passar fome e frio.

Em tempos ainda de intolerância religiosa entre católicos e protestantes escoceses, o autor demonstra como esse fato interferia na vida das pessoas, sugestionando até as atitudes de crianças. A infância e a juventude, seus costumes e desenvolvimento, são a base para a evolução do enredo: suas buscas, incertezas, fugas e profunda tristeza pelo pai que tinham e pela mãe autodestrutiva pelo orgulho e pela bebida.

O texto de Stuart cresce na medida do desenvolvimento da história. Cresce em qualidade literária, na inclusão do leitor no contexto, na lapidação poética da escrita. A valorização da família vem à tona num diálogo e num forte cenário de conversação e ação educativa.

Para os leitores brasileiros o contexto de costumes e locais é bastante estranho, pois nada tem a ver com a nossa realidade. Todavia, apresenta-nos a oportunidade de conhecer um pouco mais dos gostos e mazelas britânicos verdadeiros, em situações de extrema dificuldade, onde assimilamos hábitos alimentares, econômicos, de transporte e moradia, vestuário e os cortiços, mais especificamente em solo da capital escocesa.

Este é um livro difícil no sentido de ter um enredo pesado. Há muita maldade humana colocada impiedosamente por Stuart, em sua linguagem direta, crua, às vezes até grotesca, para revelar uma realidade de desvios de relacionamento e do desrespeito humanos; das consequências da irresponsabilidade de um alcoólatra; dos preconceitos homofóbicos e religiosos incutidos desde cedo nas crianças; da pobreza genuína encoberta pelo mundo considerado evoluído numa das épocas economicamente mais difíceis da Escócia, com muito desemprego.

Esta é uma obra tensa sobre pobreza, vício e abuso que muitas vezes nos deixa aflitos. Noutras, ansiosos e revoltados. Um grande trabalho de estreia de Douglas Stuart, revelando seu profundo amor – sofrido – pela própria mãe, já que se trata de um trabalho autobiográfico. Seu texto é direto, claro, sem firulas literárias, porém sem ser raso.  Usa frases brilhantes e muito criativas para definir as mais diversas situações ou para concluí-las.

Além de ser um ato de amor, a obra é belíssima nesse sentido, pois traz a luta de uma criança/pré-adolescente para salvar sua querida mãe de todos os males que seu vício atrai e consuma, em detrimento de toda a família. E assim, temos na realidade dois fortes protagonistas, não só o Shuggie do título, como sua mãe Agnes, elegante e linda (como Elizabeth Taylor) e inteligente, corroída pelo vício.

Este é o relato de uma luta de amor profundo raramente descrita na produção literária mundial que vale muito a pena ler. Recomendo!

Valdemir Martins

20.02.2026

Fotos: 1. Capa do livro; 2. Os cortiços de Glasgow; 3. A ex-primeira-ministra Margareth Thatcher; 4. A intolerância religiosa entre católicos e protestantes; 5. A mãe natural do autor; 6. A mãe bêbada e a amiga oportunista; 7. O autor Douglas Stuart.

21 de jun. de 2026

Viaje pela polêmica Terra Americana.

A grande polêmica em torno da obra, o fato de ser considerada um dos melhores lançamentos de 2020 pela imprensa especializada norte americana e por ser qualificada como “extraordinária” por Stephen King, além de sua inclusão no seleto clube do livro da Oprah Winfrey, levou-me à leitura de Terra Americana , da ianque Jeanine Cummins. Não me arrependi. A obra começa impactante com toda a dramaticidade de um massacre em Acapulco.

A partir daí, entramos num espetacular suspense de fuga e sobrevivência, mostrando a real e atual força dos cartéis do narcotráfico que atuam pelas Américas e seus modos de agir. A obra constitui-se num thriller moderno brando, estruturado em flashbacks que dão consistência ao enredo. A base de tudo consiste no luto e na sobrevivência.

Seus protagonistas, duas irmãs adolescentes, um menino prodígio de oito anos e sua prudente e zelosa mamãe, cruzam o México num périplo maluco em busca da saída desapercebida e ilegal do país. Seus múltiplos personagens passantes são cativantes e de uma riqueza fabulosa, com fortes perfis psicológicos, os quais Cummins entremeia de forma bastante real e lógica na trama que tem em seu vilão um fértil enquadramento psicológico que oscila entre um poeta, um cavalheiro e o pior dos carrascos.

Assim como os protagonistas, sentimos os perigos nas sombras e há um peso que nos agarra e arrasta-se em  nossa mente por toda a leitura. Descrições de violência são o parâmetro para dar consistência às fugas de migrantes a partir do México para os Estados Unidos. São pessoas vítimas principalmente dos brutais narcotraficantes. E dessa forma a autora denuncia tantas barbaridades e irregularidades desses cartéis e de gangues mais poderosas que seus governos, espalhadas pela América Latina, em especial no México.

Mas o livro tem passagens encantadoras como a descrição de uma aldeia em Honduras, arrematada de forma belíssima pela autora com “e é assim que ele sabe que Rebeca é mágica, pois pode transportá-lo por milhares de quilômetros até seu próprio vilarejo nas montanhas apenas com o som de sua voz.”

O livro apresenta uma narrativa muito envolvente, levando o leitor a viajar e vivenciar a vida dos protagonistas de forma a não querer interromper a leitura. Trata-se de personagens que sofrem dificuldades inconcebíveis e que conseguem superar traumas extraordinários, em passagens de heroísmo e generosidade.

Milhares de migrantes, pessoas fugindo da violência e da pobreza, situações de suspense e de terror e um clímax robusto e agitado transformaram este excelente livro numa polêmica causa de discussão – principalmente dos ciumentos autores mexicanos que nunca se dignaram a escrever sobre o assunto – envolvendo a “autenticidade de uma história mexicana escrita por uma  estadounidense”, num inútil debate sobre apropriação cultural sem sentido. Todos se esquecem que é apenas uma peça de ficção e que, portanto, não exige esta ou aquela nacionalidade de seu autor.

O grande valor literário desta obra é a capacidade que Cummins tem de envolver o leitor em sua perfeita narrativa, clara, objetiva, despida de pretensões. Seu livro é viciante; diferente, surpreendente e emocionante em seus pontos mais estratégicos. Simples e magistral. Repetindo o mestre Stephen King, considero-o um livro extraordinário. Recomendo!

Valdemir Martins

02.02.2026

Fotos. 1. Capa do livro; 2. A orla de Acapulco; 3. Mosteiro que abriga fugitivos; 4. Viagem no teto do trem; 5. A fronteira no deserto; 6. O terrível terreno do deserto americano; 7. O descanso do grupo; 8. A autora Jeanine Cummins.

25 de abr. de 2026

Como se dança o Sátántangó, O Tango de Satã?

Nada como um texto solto, ligeiro, que conduz o leitor a concluir as situações sem que estejam no texto; uma forma muito agradável de participar do enredo. É dessa forma que o romancista húngaro László Krasznahorkai – Prêmio Nobel de Literatura de 2025  – faz a abertura de sua primeira e consagrada obra Sátántangó (ou O Tango de Satã).

Num clima claustrofóbico, algo fantástico e chuvoso, muito chuvoso, o autor desenvolve seu texto na maior parte das vezes em blocos extensos e sólidos (um único parágrafo por capítulo), neles arrolando descrições e diálogos em sequência, sem espaços ou parágrafos. Isto leva provavelmente a maioria dos leitores a ter uma leitura mais lenta, pois é-lhes exigida maior atenção para compreender o seguimento do escrito; quem fala o quê, para quem e em que situação.

Neste estilo literário denso e inovador, Krasznahorkai desperta a atenção dos apreciadores de qualidade literária em lugar da leitura fácil que muitas vezes leva o leitor a assimilar uma história sem se aperceber – ou por omissão do autor, ou por não perceber - dos instrumentos e técnicas literárias colocadas em evidência no texto. Aqui, através de uma narrativa extremamente grotesca, ele infiltra e entremeia nas entrelinhas uma história racional de uma mundo pós apocalíptico no rescaldo do que sobrou de um vilarejo húngaro depois do esfacelamento da União Soviética e seu comunismo.

Diálogos de dois personagens com autoridades de um batalhão enquadram-se num ensaio surrealista, tamanha são as disparidades e incongruências entre perguntas, respostas, reações e comentários. E tudo encerrado numa narrativa maravilhosa de  Krasznahorkai: “Sob uma luz filtrada por nuvens densas, a cidade respirava através de um véu; nas ruas soprava um vento inamistoso, casas, calçadas, caminhos se encharcavam desprotegidos debaixo da chuva que despencava. Velhas sentavam-se atrás das janelas, contemplavam por cortinas rendadas a escuridão...”.

Noutro trecho, o leitor poderá “sentir” o mau cheiro exalado pela imundície na casa de um médico alcoólatra aposentado e sentir-se sufocado e umedecido pela chuva permanente que inunda o romance, com os personagens vagueando constantemente pelos lamaçais; tudo resumido pelo próprio autor na breve descrição de como é o início do outono naquele lugar. Seus estranhos personagens, sem exceção, são todos desajustados.

Fascinantemente sombrio, o romance traça um paralelo interessante sobre a decrepitude de alguns personagens e do cenário da história diante das intempéries, da falta de propósitos, da vida vulgar e dos destroços do vilarejo deixados pelo governo comunista. O absurdo se destaca principalmente nas divagações filosóficas inócuas, todavia muito bem construídas.

Um dos capítulos mais fortes e aterrorizantes é o que trata de duas crianças e um gato. Suas situações degenerativas trazem-nos assassinato, golpe, roubo, abuso e torturas física e psicológica, como também um suicídio. Além, evidentemente, da escuridão, da chuva, da lama e do frio.

Em determinado momento da leitura, pode-se concluir que o autor faz reflexões lógicas ou absurdas, usando de forma maniqueísta seus personagens. Nos encontros com mais de uma pessoa o texto deságua ou resvala no inconcluso, truncado ou ilógico. Mas a partir do instante em que surge um personagem de liderança, idolatrado - o satã do título -, o enredo começa a tomar forma de uma história onde Krasznahorkai coloca em evidência o agrupamento das principais figuras perdedoras que compõem o livro.

De leitura difícil, pois exige concentração e assimilação correta das situações, Sátántangó é um romance de 1985 e só foi publicado por aqui, pela primeira vez, em 2022 pela Companhia das Letras.

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Valdemir Martins

24.01.2026

Fotos: 1. Capa do livro; 2. A cidade abandonada; 3. Os três líderes na estrada; 4. O menino vadio e seu gato; 5. A reunião no bar; 6. O velório da menina; 7. A fuga da cidade; 8. O autor László Krasznahorkai.

Obs: As fotos são takes do filme baseado no livro, com a incrível duração de sete horas.

24 de mar. de 2026

O Fio da Navalha

Seria perfeitamente normal um autor justificar seu livro num prólogo, num prefácio ou mesmo numa introdução, dependendo da finalidade e do gênero da obra. Cada um tem um objetivo específico, mas todos servem para preparar o leitor para a história ou o tema principal. Mas não é o caso de O Fio da Navalha, onde o competentíssimo e polivalente autor britânico William Somerset Maugham resolve fazê-lo na própria narrativa de seu enredo. E o escritor, neste caso, é o próprio protagonista de O Fio da Navalha

O crash da Bolsa de Nova Iorque, em 1929, muda também o roteiro da obra. A ponto de Maugham perguntar sobre seu riquinho personagem: “Quem poderia negar que Elliott, aquele ultra esnobe, era também o mais bondoso, mais delicado e generoso dos homens?”. A bela história de uma mulher forte, com relacionamento com o autor e com um dos personagens, torna-se um capítulo tão especial que conota como um conto dentro da obra. Faz-nos, sem dúvida, espairecer um pouco da sufocante história dos personagens centrais. 

Então, muda-se o cenário mais frequente de Paris para a Riviera Francesa e dá-se o encaminhamento à apoteose do romance. E, por aí, o autor vai até o Oriente e concede-nos reflexões um pouco superficiais sobre fé, religiosos, o bem e o mal, reencarnação, razão, verdade e liberdade. E, em tudo, até aqui, vai deixando-nos detalhes de passagens de sua vida pessoal, como rastros de uma autobiografia dissimulada. 

Este é um livro que se inicia com um personagem que deseja tornar-se célebre e se encerra com outro ao qual distinguir-se aos olhos do público lhe seria sumamente desagradável. Nessa transmutação, o autor faz uma exploração filosófica da busca por sentido, trazendo-nos alguns personagens complexos, num texto de altos e baixos em termos de sequência narrativa. 

Assim, Maugham apresenta-nos uma obra com dramaticidade, comicidade, suntuosidade, espiritualidade e reflexões vivenciais, e que, por seu clima novelesco, já ganhou algumas versões cinematográficas. Mas, com certeza, neste livro nada se compara à profundidade de sua obra prima Servidão Humana (vide comentário em https://contracapaladob.blogspot.com/2016/10/nos-e-nossos-cativeiros.html . 

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Valdemir Martins 
04.01.2026

Fotos: 1. Capa do livro; 2. A casa em Chicago; 3. O crash da Bolsa de Nova Iorque; 4. O restaurante em Paris; 5. O guru indiano; 6. A Riviera Francesa; 7. O autor William Somerset Maugham.

 

8 de mar. de 2026

A Bíblia: uma pequena grande fábula familiar.

Já nas primeiras linhas percebe-se a qualidade literária da obra A Bíblia do consagrado húngaro Péter Nádas. Não se trata aqui da leitura do considerado livro sagrado, mas sim de como um exemplar deste desencadeia toda um história deslumbrante. E num rompante do protagonista surge a violência e a inconsequência que irá marcá-lo neste breve romance.
A famosa frase "mente desocupada é oficina do diabo" aplica-se adequadamente a esta obra. Apesar de não constar na Bíblia Sagrada em nenhum de seus evangelhos – contrariando o que dizem popularmente -, é sugerido em Filipenses, Mateus, Romanos e Josué. O protagonista, um pré-adolescente sem cuidados e orientação educacional e com a mente permanentemente desocupada, preenche-a com besteiras e insegurança.

Dessa forma, em agressão permanente com pessoas mais frágeis ao seu redor, inflige atos destrutivos a elas inconsequentemente, a ponto de usar um exemplar da bíblia como arma e pretexto. E assim, Nádas constrói uma narrativa cruel sobre o despertar sexual de um menino e sobre desejo, desigualdade social e política.

Além da extraordinária narrativa onde apresenta a descoberta da sexualidade, Nádas abrilhanta ainda mais a obra transmitindo tensão permanente em sua leitura, revelando a inesperada capacidade do menino em ser violento, cruel e surpreendentemente bondoso. Aqui fica evidente, também, a denuncia do autor sobre a elite comunista destoando drasticamente da absoluta pobreza do famélico povo no regime comunista húngaro ou de qualquer outro regime comunista.

Péter Nádas é um dos mais importantes escritores húngaros em atividade. E se coloca o título de A Bíblia em sua obra é por que ela é a chave do inesperado desfecho desta pequena grande fábula familiar.

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Valdemir Martins
07.12.2025

Fotos: 1. Capa do livro; 2. Cachorro morto no jardim; 3. Menino na cama; 4. A bíblia sobre o móvel; 5. O autor Péter Nádas.