Criando um complexo romance social
pioneiro na Rússia dos czares, Fiódor
Dostoiévski brilha já em sua primeira obra denominada Gente Pobre. Um romance elaborado
com técnica literária epistolar tão envolvente quanto outros do gênero, como Frankenstein, A Cor Púrpura, Carrie a
estranha, Drácula, As Ligações Perigosas, Os Sofrimentos do Jovem Werther, entre
outros de primeira linha.
Um protagonista extremamente dedicado
abre a obra divagando numa carta sua declaração de profundo amor pela destinatária. Pelo exagero, esta reclama, mas
corresponde por absoluto respeito ao mandatário. E nesse tom, Dostoiévski vai
revelando um enredo de gente pobre, literalmente. Os dois protagonistas, em
suas atitudes e falas, descrições e anseios, vão revelando-nos suas condições,
fazendo-nos sentir a injustiça social.
Neste verdadeiro confessionário
epistolar, o autor expõe sua imensa capacidade criativa e literária. Com frequência
e freneticamente, faz-nos refletir impiedosamente. Não há como escapar das
reflexões diante do que nos é exposto. E que torna a obra esplendorosa para o
leitor autorreflexivo e para o apreciador de alto nível literário.
Numa
linguagem concisa, fluente e objetiva, Dostoiévski vai erigindo um quadro realista
da situação das pessoas e famílias pobres de São Petersburgo em suas condições
e aflições. O autor impacta-nos com a crueza de suas descrições sobre condições
sub-humanas da pobreza de seus personagens. Torna-se impossível não se
sensibilizar com a vida de agruras das pessoas que passam pela obra.
Em seu
fundamental estilo de ir revelando seus protagonistas aos poucos em sua
delicada montagem de um personagem, Dostoiévski procede de maneira a não
esquecer de dar-lhes também uma forte personalidade. Apesar do contrassenso de pessoas
tão necessitadas e incultas expressarem-se tão bem, o autor concede-lhes os
dons da percepção, da inteligência, do bom senso e da astúcia.
Contudo,
este forte e vigoroso romance impacta-nos pelo crescente desespero de forma
magistral. A pobreza acaba enfraquecendo o vigor, a mente e a razão do
protagonista, o qual ingressa num turbilhão de pessimismo onde atrai tudo de
ruim e atrapalhado ao derredor. Em contrapartida, a protagonista brinda-nos com
uma exultante e delicada narrativa outonal – na Rússia, claro - com uma
vigorosa carga de lirismo. Isso, num intruso e inesperado lapso de felicidade
diante de tantos infortúnios.
No
clímax da obra Dostoiévski concede-nos um arranjo que só a literatura é capaz
de permitir: a transformação inversa dos protagonistas ao tempo em que revela
seus âmagos de uma estirpe real de gente desvalida. E assim, brinda-nos com a
oportunidade de avaliar e refletir sobre o egoísmo, a fraqueza e a indolência
dos muitos que são pobres. E revela-nos a riqueza literária dos protagonistas
de Gente Pobre.
Se gostou do comentário sobre este livro, basta clicar em "Seguir" no lado superior direito desta página (abaixo das fotos dos "Seguidores") e você receberá os novos comentários sobre outros livros gratuitamente, sem compromisso.
Valdemir
Martins
20.10.2025
Fotos: 1. Capa do livro; 2. As inúmeras cartas trocadas; 3. O bairro pobre. 4. Os escriturários funcionário públicos; 5. O inverno rigoroso de São Petersburgo; 6. O autor Fiódor Dostoiévski.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Agradeço seu comentário e participação!