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28 de dez. de 2025

Os ricos protagonistas de Gente Pobre.

Criando um complexo romance social pioneiro na Rússia dos czares, Fiódor Dostoiévski brilha já em sua primeira obra denominada Gente Pobre. Um romance elaborado com técnica literária epistolar tão envolvente quanto outros do gênero, como Frankenstein, A Cor Púrpura, Carrie a estranha, Drácula, As Ligações Perigosas, Os Sofrimentos do Jovem Werther, entre outros de primeira linha.

Um protagonista extremamente dedicado abre a obra divagando numa carta sua declaração de profundo amor pela  destinatária. Pelo exagero, esta reclama, mas corresponde por absoluto respeito ao mandatário. E nesse tom, Dostoiévski vai revelando um enredo de gente pobre, literalmente. Os dois protagonistas, em suas atitudes e falas, descrições e anseios, vão revelando-nos suas condições, fazendo-nos sentir a injustiça social.

Neste verdadeiro confessionário epistolar, o autor expõe sua imensa capacidade criativa e literária. Com frequência e freneticamente, faz-nos refletir impiedosamente. Não há como escapar das reflexões diante do que nos é exposto. E que torna a obra esplendorosa para o leitor autorreflexivo e para o apreciador de alto nível literário.

Numa linguagem concisa, fluente e objetiva, Dostoiévski vai erigindo um quadro realista da situação das pessoas e famílias pobres de São Petersburgo em suas condições e aflições. O autor impacta-nos com a crueza de suas descrições sobre condições sub-humanas da pobreza de seus personagens. Torna-se impossível não se sensibilizar com a vida de agruras das pessoas que passam pela obra.

Em seu fundamental estilo de ir revelando seus protagonistas aos poucos em sua delicada montagem de um personagem, Dostoiévski procede de maneira a não esquecer de dar-lhes também uma forte personalidade. Apesar do contrassenso de pessoas tão necessitadas e incultas expressarem-se tão bem, o autor concede-lhes os dons da percepção, da inteligência, do bom senso e da astúcia.

Contudo, este forte e vigoroso romance impacta-nos pelo crescente desespero de forma magistral. A pobreza acaba enfraquecendo o vigor, a mente e a razão do protagonista, o qual ingressa num turbilhão de pessimismo onde atrai tudo de ruim e atrapalhado ao derredor. Em contrapartida, a protagonista brinda-nos com uma exultante e delicada narrativa outonal – na Rússia, claro - com uma vigorosa carga de lirismo. Isso, num intruso e inesperado lapso de felicidade diante de tantos infortúnios.

No clímax da obra Dostoiévski concede-nos um arranjo que só a literatura é capaz de permitir: a transformação inversa dos protagonistas ao tempo em que revela seus âmagos de uma estirpe real de gente desvalida. E assim, brinda-nos com a oportunidade de avaliar e refletir sobre o egoísmo, a fraqueza e a indolência dos muitos que são pobres. E revela-nos a riqueza literária dos protagonistas de Gente Pobre.

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Valdemir Martins

20.10.2025

Fotos: 1. Capa do livro; 2. As inúmeras cartas trocadas; 3. O bairro pobre. 4. Os escriturários funcionário públicos; 5. O inverno rigoroso de São Petersburgo; 6. O autor Fiódor Dostoiévski.

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