Seria perfeitamente normal um autor justificar seu livro num prólogo, num prefácio ou mesmo numa introdução, dependendo da finalidade e do gênero da obra. Cada um tem um objetivo específico, mas todos servem para preparar o leitor para a história ou o tema principal. Mas não é o caso de O Fio da Navalha, onde o competentíssimo e polivalente autor britânico William Somerset Maugham resolve fazê-lo na própria narrativa de seu enredo. E o escritor, neste caso, é o próprio protagonista de O Fio da Navalha.
O crash da Bolsa de Nova Iorque, em 1929, muda também o roteiro da obra. A ponto de Maugham perguntar sobre seu riquinho personagem: “Quem poderia negar que Elliott, aquele ultra esnobe, era também o mais bondoso, mais delicado e generoso dos homens?”. A bela história de uma mulher forte, com relacionamento com o autor e com um dos personagens, torna-se um capítulo tão especial que conota como um conto dentro da obra. Faz-nos, sem dúvida, espairecer um pouco da sufocante história dos personagens centrais.
Então, muda-se o cenário mais frequente de Paris para a Riviera Francesa e dá-se o encaminhamento à apoteose do romance. E, por aí, o autor vai até o Oriente e concede-nos reflexões um pouco superficiais sobre fé, religiosos, o bem e o mal, reencarnação, razão, verdade e liberdade. E, em tudo, até aqui, vai deixando-nos detalhes de passagens de sua vida pessoal, como rastros de uma autobiografia dissimulada.
Este é um livro que se inicia com um personagem que deseja tornar-se célebre e se encerra com outro ao qual distinguir-se aos olhos do público lhe seria sumamente desagradável. Nessa transmutação, o autor faz uma exploração filosófica da busca por sentido, trazendo-nos alguns personagens complexos, num texto de altos e baixos em termos de sequência narrativa.
Assim, Maugham apresenta-nos uma obra com dramaticidade, comicidade, suntuosidade, espiritualidade e reflexões vivenciais, e que, por seu clima novelesco, já ganhou algumas versões cinematográficas. Mas, com certeza, neste livro nada se compara à profundidade de sua obra prima Servidão Humana (vide comentário em https://contracapaladob.blogspot.com/2016/10/nos-e-nossos-cativeiros.html .
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Valdemir Martins
04.01.2026
Fotos: 1. Capa do livro; 2. A casa em Chicago; 3. O crash da Bolsa de Nova Iorque; 4. O restaurante em Paris; 5. O guru indiano; 6. A Riviera Francesa; 7. O autor William Somerset Maugham.







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