Nada como um texto solto, ligeiro, que conduz o leitor a
concluir as situações sem que estejam no texto; uma forma muito agradável de
participar do enredo. É dessa forma que o romancista húngaro László
Krasznahorkai – Prêmio Nobel de Literatura de 2025 – faz a abertura de sua primeira e consagrada
obra Sátántangó
(ou O
Tango de Satã).
Num
clima claustrofóbico, algo fantástico e chuvoso, muito chuvoso, o autor
desenvolve seu texto na maior parte das vezes em blocos extensos e sólidos (um
único parágrafo por capítulo), neles arrolando descrições e diálogos em
sequência, sem espaços ou parágrafos. Isto leva provavelmente a maioria dos
leitores a ter uma leitura mais lenta, pois é-lhes exigida maior atenção para
compreender o seguimento do escrito; quem fala o quê, para quem e em que
situação.

Neste
estilo literário denso e inovador, Krasznahorkai desperta a atenção dos
apreciadores de qualidade literária em lugar da leitura fácil que muitas vezes
leva o leitor a assimilar uma história sem se aperceber – ou por omissão do
autor, ou por não perceber - dos instrumentos e técnicas literárias colocadas
em evidência no texto. Aqui, através de uma narrativa extremamente grotesca,
ele infiltra e entremeia nas entrelinhas uma história racional de uma mundo pós
apocalíptico no rescaldo do que sobrou de um vilarejo húngaro depois do
esfacelamento da União Soviética e seu comunismo.

Diálogos
de dois personagens com autoridades de um batalhão enquadram-se num ensaio surrealista,
tamanha são as disparidades e incongruências entre perguntas, respostas,
reações e comentários. E tudo encerrado numa narrativa maravilhosa de Krasznahorkai: “Sob uma luz filtrada por
nuvens densas, a cidade respirava através de um véu; nas ruas soprava um vento
inamistoso, casas, calçadas, caminhos se encharcavam desprotegidos debaixo da
chuva que despencava. Velhas sentavam-se atrás das janelas, contemplavam por
cortinas rendadas a escuridão...”.
Noutro
trecho, o leitor poderá “sentir” o mau cheiro exalado pela imundície na casa de
um médico alcoólatra aposentado e sentir-se sufocado e umedecido pela chuva permanente
que inunda o romance, com os personagens vagueando constantemente pelos
lamaçais; tudo resumido pelo próprio autor na breve descrição de como é o
início do outono naquele lugar. Seus estranhos personagens, sem exceção, são
todos desajustados.
Fascinantemente
sombrio, o romance traça um paralelo interessante sobre a decrepitude de alguns
personagens e do cenário da história diante das intempéries, da falta de
propósitos, da vida vulgar e dos destroços do vilarejo deixados pelo governo
comunista. O absurdo se destaca principalmente nas divagações filosóficas
inócuas, todavia muito bem construídas.
Um
dos capítulos mais fortes e aterrorizantes é o que trata de duas crianças e um
gato. Suas situações degenerativas trazem-nos assassinato, golpe, roubo, abuso
e torturas física e psicológica, como também um suicídio. Além, evidentemente,
da escuridão, da chuva, da lama e do frio.
Em
determinado momento da leitura, pode-se concluir que o autor faz reflexões
lógicas ou absurdas, usando de forma maniqueísta seus personagens. Nos encontros
com mais de uma pessoa o texto deságua ou resvala no inconcluso, truncado ou ilógico.
Mas a partir do instante em que surge um personagem de liderança, idolatrado, o
enredo começa a tomar forma de uma história onde Krasznahorkai coloca em
evidência o agrupamento das principais figuras perdedoras que compõem o livro.
De
leitura difícil, pois exige concentração e assimilação correta das situações, Sátántangó é um
romance de 1985 e só foi publicado por aqui, pela primeira vez, em 2022 pela
Companhia das Letras.
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Valdemir
Martins
24.01.2026
Fotos: 1. Capa do livro; 2. A cidade abandonada; 3. Os três líderes na estrada; 4. O menino vadio e seu gato; 5. A reunião no bar; 6. O velório da menina; 7. A fuga da cidade; 8. O autor László Krasznahorkai.
Obs: As fotos são takes do filme baseado no livro, com a incrível duração de sete horas.