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25 de abr. de 2026

Como se dança o Sátántangó, O Tango de Satã?

Nada como um texto solto, ligeiro, que conduz o leitor a concluir as situações sem que estejam no texto; uma forma muito agradável de participar do enredo. É dessa forma que o romancista húngaro László Krasznahorkai – Prêmio Nobel de Literatura de 2025  – faz a abertura de sua primeira e consagrada obra Sátántangó (ou O Tango de Satã).

Num clima claustrofóbico, algo fantástico e chuvoso, muito chuvoso, o autor desenvolve seu texto na maior parte das vezes em blocos extensos e sólidos (um único parágrafo por capítulo), neles arrolando descrições e diálogos em sequência, sem espaços ou parágrafos. Isto leva provavelmente a maioria dos leitores a ter uma leitura mais lenta, pois é-lhes exigida maior atenção para compreender o seguimento do escrito; quem fala o quê, para quem e em que situação.

Neste estilo literário denso e inovador, Krasznahorkai desperta a atenção dos apreciadores de qualidade literária em lugar da leitura fácil que muitas vezes leva o leitor a assimilar uma história sem se aperceber – ou por omissão do autor, ou por não perceber - dos instrumentos e técnicas literárias colocadas em evidência no texto. Aqui, através de uma narrativa extremamente grotesca, ele infiltra e entremeia nas entrelinhas uma história racional de uma mundo pós apocalíptico no rescaldo do que sobrou de um vilarejo húngaro depois do esfacelamento da União Soviética e seu comunismo.

Diálogos de dois personagens com autoridades de um batalhão enquadram-se num ensaio surrealista, tamanha são as disparidades e incongruências entre perguntas, respostas, reações e comentários. E tudo encerrado numa narrativa maravilhosa de  Krasznahorkai: “Sob uma luz filtrada por nuvens densas, a cidade respirava através de um véu; nas ruas soprava um vento inamistoso, casas, calçadas, caminhos se encharcavam desprotegidos debaixo da chuva que despencava. Velhas sentavam-se atrás das janelas, contemplavam por cortinas rendadas a escuridão...”.

Noutro trecho, o leitor poderá “sentir” o mau cheiro exalado pela imundície na casa de um médico alcoólatra aposentado e sentir-se sufocado e umedecido pela chuva permanente que inunda o romance, com os personagens vagueando constantemente pelos lamaçais; tudo resumido pelo próprio autor na breve descrição de como é o início do outono naquele lugar. Seus estranhos personagens, sem exceção, são todos desajustados.

Fascinantemente sombrio, o romance traça um paralelo interessante sobre a decrepitude de alguns personagens e do cenário da história diante das intempéries, da falta de propósitos, da vida vulgar e dos destroços do vilarejo deixados pelo governo comunista. O absurdo se destaca principalmente nas divagações filosóficas inócuas, todavia muito bem construídas.

Um dos capítulos mais fortes e aterrorizantes é o que trata de duas crianças e um gato. Suas situações degenerativas trazem-nos assassinato, golpe, roubo, abuso e torturas física e psicológica, como também um suicídio. Além, evidentemente, da escuridão, da chuva, da lama e do frio.

Em determinado momento da leitura, pode-se concluir que o autor faz reflexões lógicas ou absurdas, usando de forma maniqueísta seus personagens. Nos encontros com mais de uma pessoa o texto deságua ou resvala no inconcluso, truncado ou ilógico. Mas a partir do instante em que surge um personagem de liderança, idolatrado, o enredo começa a tomar forma de uma história onde Krasznahorkai coloca em evidência o agrupamento das principais figuras perdedoras que compõem o livro.

De leitura difícil, pois exige concentração e assimilação correta das situações, Sátántangó é um romance de 1985 e só foi publicado por aqui, pela primeira vez, em 2022 pela Companhia das Letras.

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Valdemir Martins

24.01.2026

Fotos: 1. Capa do livro; 2. A cidade abandonada; 3. Os três líderes na estrada; 4. O menino vadio e seu gato; 5. A reunião no bar; 6. O velório da menina; 7. A fuga da cidade; 8. O autor László Krasznahorkai.

Obs: As fotos são takes do filme baseado no livro, com a incrível duração de sete horas.

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