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23 de jul. de 2026

A História de Shuggie Bain

Com detalhes suficientes sobre a pobreza em Glasgow, na Escócia, e uma riqueza de descrições sobre a personalidade dos personagens, o livro A História de Shuggie Bain, do escocês americano Douglas Stuart, vencedor do The 2020 Booker Prize, marca a estreia do autor na literatura.

Numa linguagem crua e realista, Stuart desenvolve uma vigorosa história de cunho autobiográfico, apresentando o relacionamento profundo, construído no sofrimento, entre um filho solitário e sua mãe amorosa e bêbada. A trama desenrola-se no difícil período da economia britânica comandada por Margareth Tatcher nos anos de 1980, revelando as dificuldades dos mais pobres, personagens desta trama, onde os menores níqueis eram valorizados para se poder sobreviver sem passar fome e frio.

Em tempos ainda de intolerância religiosa entre católicos e protestantes escoceses, o autor demonstra como esse fato interferia na vida das pessoas, sugestionando até as atitudes de crianças. A infância e a juventude, seus costumes e desenvolvimento, são a base para a evolução do enredo: suas buscas, incertezas, fugas e profunda tristeza pelo pai que tinham e pela mãe autodestrutiva pelo orgulho e pela bebida.

O texto de Stuart cresce na medida do desenvolvimento da história. Cresce em qualidade literária, na inclusão do leitor no contexto, na lapidação poética da escrita. A valorização da família vem à tona num diálogo e num forte cenário de conversação e ação educativa.

Para os leitores brasileiros o contexto de costumes e locais é bastante estranho, pois nada tem a ver com a nossa realidade. Todavia, apresenta-nos a oportunidade de conhecer um pouco mais dos gostos e mazelas britânicos verdadeiros, em situações de extrema dificuldade, onde assimilamos hábitos alimentares, econômicos, de transporte e moradia, vestuário e os cortiços, mais especificamente em solo da capital escocesa.

Este é um livro difícil no sentido de ter um enredo pesado. Há muita maldade humana colocada impiedosamente por Stuart, em sua linguagem direta, crua, às vezes até grotesca, para revelar uma realidade de desvios de relacionamento e do desrespeito humanos; das consequências da irresponsabilidade de um alcoólatra; dos preconceitos homofóbicos e religiosos incutidos desde cedo nas crianças; da pobreza genuína encoberta pelo mundo considerado evoluído numa das épocas economicamente mais difíceis da Escócia, com muito desemprego.

Esta é uma obra tensa sobre pobreza, vício e abuso que muitas vezes nos deixa aflitos. Noutras, ansiosos e revoltados. Um grande trabalho de estreia de Douglas Stuart, revelando seu profundo amor – sofrido – pela própria mãe, já que se trata de um trabalho autobiográfico. Seu texto é direto, claro, sem firulas literárias, porém sem ser raso.  Usa frases brilhantes e muito criativas para definir as mais diversas situações ou para concluí-las.

Além de ser um ato de amor, a obra é belíssima nesse sentido, pois traz a luta de uma criança/pré-adolescente para salvar sua querida mãe de todos os males que seu vício atrai e consuma, em detrimento de toda a família. E assim, temos na realidade dois fortes protagonistas, não só o Shuggie do título, como sua mãe Agnes, elegante e linda (como Elizabeth Taylor) e inteligente, corroída pelo vício.

Este é o relato de uma luta de amor profundo raramente descrita na produção literária mundial que vale muito a pena ler. Recomendo!

Valdemir Martins

20.02.2026

Fotos: 1. Capa do livro; 2. Os cortiços de Glasgow; 3. A ex-primeira-ministra Margareth Thatcher; 4. A intolerância religiosa entre católicos e protestantes; 5. A mãe natural do autor; 6. A mãe bêbada e a amiga oportunista; 7. O autor Douglas Stuart.