Não entendo norueguês, assim como não conheço o texto original, mas aqui temos a oportunidade de ler um clássico consagrado nesta tradução (do francês) de Drummond num português exuberante, dele assaz adequado. Além de um texto de Hamsun bastante rico literariamente, o prazer de “ler” concomitantemente um Drummond é algo muito especial que se sente e se saboreia, inexplicável em letras.
Em suas cismas, o famélico
protagonista sentia-se tão profundamente desgostoso e fatigado por toda essa
vida miserável que chegou ao ponto de desistir e entregar-se à má sorte. Chegou
a esse ponto, evidentemente, por sua teimosia, excesso de honestidade e fraco
caráter. Da forma como Hamsun construiu e desenvolveu seu personagem, chegamos
a momentos de considerá-lo um palerma, muitas vezes estúpido em suas decisões
absurdas. Mas essa é a força do protagonista que estrutura toda a obra,
tornando-a única em sua força literária.
Apesar dessa potencialidade, o
livro apresenta aspectos estranhos ao contexto, como o fato do famélico, apesar
de controverso, ser um homem culto e inteligente, cujas atitudes denotam o
contrário; seu passado é insinuado como uma pessoa de alguma posse e de boas e
muitas relações, sem esclarecer como chegou a uma situação pessoal tão penosa;
e, apesar de seu mau aspecto, magérrimo, maltrapilho e sujo, conquista uma
mulher com alguma intimidade. Outras situações, de resolução bastante óbvia ou
lógica, não ocorrem.
De qualquer forma, trata-se de
ficção e não de perfeição, e como tal revolucionou a literatura da época
(1890), com Knut Hamsun – autor de mais de 40 livros - sendo mentor do neo-romantismo,
tendo influenciando importantes autores como Thomas Mann, Máximo Górki, Kafka,
Hemingway, Miller e Brecht, entre outros.
Leitura altamente recomendada
para quem aprecia boa literatura.
Valdemir Martins
05.03.2026
Fotos: 1. Capa do livro; 2. Cidade de Cristiania (atual Oslo); 3. O protagonista no banco de jardim (ilustração da capa da edição da editora Relógio D'Água); 4. O quartinho molambento; 5. Vista da cidade de Cristiania na época; 6. O autor norueguês Knut Hamsun.




