Mais
que a destruição, as mortes e os ferimentos, as punições e as restrições à vida
das pessoas, o que a guerra traz de pior é com certeza a fome. E, com esse
enfoque, Tom Rob Smith dá início ao
seu clássico moderno, o primoroso e assustador romance histórico Criança
44, sobre uma das persistentes tragédias da Ucrânia – aqui, o Holodomor* -, causadas via de regra
pelos russos. Desta vez no século 20, durante o governo totalitarista e
comunista do sanguinário Stálin.

Assim como a fome extrema, a
narrativa de Smith é devastadora. De forma clara e evidente narra fatos do
cotidiano soviético, em plena vigência do regime utópico bolchevique, inicialmente
durante a investigação de um crime. A fantasia social e política é tão grotesca,
quanto esclarecedora sobre como os agentes comunistas pensavam e acreditavam
fielmente nesse sistema.

Numa linguagem crua e direta,
Smith incumbe-se de revelar o porquê de uma ditadura utópica ter mantido-se no
poder por tantos anos sob a auréola da “Revolução Popular” – claramente sem a
participação do povo –, comandada por um ideólogo e por um psicopata, este, responsável “inocente” pela morte do ideólogo
Lênin, pois não
queria compartilhar o poder. Seu totalitarismo sanguinário baseou-se
no medo e no terror, como conclui o protagonista: “Liev tinha ouvido falar em
presos que ficaram semanas abandonados e médicos cuja única função era estudar
a dor. Ele passou a acreditar que essas coisas não existiam por acaso. Existiam
por alguma razão, por um bem maior. Existiam para aterrorizar. O terror era
necessário. Protegia a Revolução. Sem ele, Lenin teria caído. Sem ele, Stalin
teria caído. O medo era cultivado. O medo fazia parte do trabalho.”.

Smith retrata com extrema
realidade o clima de sufocante insegurança em que vivia o povo soviético sob
Stálin, onde até os componentes do sistema viviam inseguros, com medo da
própria sombra. Nesse ambiente tenso e ansioso, até um pai podia denunciar um
filho, ou uma filha denunciar uma mãe, correndo o risco de todos, inclusive a
família (pais, avós, filhos e netos) serem condenados aos gulags enregelantes ou sumariamente à morte por traição ao regime e
à pátria.

Então, em meio às denúncias da
selvageria de um regime totalitarista, vão surgindo nos detalhes as sombras de
uma história de suspense também regada a brutalidades e injustiças. Gera,
então, uma investigação que reserva surpresas para o leitor, bem como traz um
toque mais suave ao romance, evidenciando vários aspectos do amor entre os
personagens. O protagonista, por exemplo, um eficiente e radical – ou até brutal - agente do governo soviético,
descobre que precisou acreditar no amor para se humanizar. Fato este que,
apesar de todos os percalços, irá conduzir ao desfecho da história.
Um romance forte, contundente e
um importante documento de denúncia, apesar de esconder em todo o seu enredo
uma difícil – quase despercebida – história de amor.
Valdemir Martins
28.06.2026
*
O Holodomor (termo ucraniano que significa
"morrer de fome") foi uma grande fome provocada
pelo regime soviético do
ditador Stalin entre 1932 e 1933, que resultou num genocídio de milhões de
ucranianos.
Fotos: 1. Capa do livro; 2. Os personagens principais; 3. A Lubjanka, o palácio da tortura; 4. A floresta onde eram encontradas as crianças; 5. O autor Tom Rob Smith.