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14 de set. de 2026

A terrível Criança 44

Mais que a destruição, as mortes e os ferimentos, as punições e as restrições à vida das pessoas, o que a guerra traz de pior é com certeza a fome. E, com esse enfoque, Tom Rob Smith dá início ao seu clássico moderno, o primoroso e assustador romance histórico Criança 44, sobre uma das persistentes tragédias da Ucrânia – aqui, o Holodomor* -, causadas via de regra pelos russos. Desta vez no século 20, durante o governo totalitarista e comunista do sanguinário Stálin.

Assim como a fome extrema, a narrativa de Smith é devastadora. De forma clara e evidente narra fatos do cotidiano soviético, em plena vigência do regime utópico bolchevique, inicialmente durante a investigação de um crime. A fantasia social e política é tão grotesca, quanto esclarecedora sobre como os agentes comunistas pensavam e acreditavam fielmente nesse sistema.

Numa linguagem crua e direta, Smith incumbe-se de revelar o porquê de uma ditadura utópica ter mantido-se no poder por tantos anos sob a auréola da “Revolução Popular” – claramente sem a participação do povo –, comandada por um ideólogo e por um psicopata, este,  responsável “inocente” pela morte do ideólogo Lênin, pois não
queria compartilhar o poder. Seu totalitarismo sanguinário baseou-se no medo e no terror, como conclui o protagonista: “Liev tinha ouvido falar em presos que ficaram semanas abandonados e médicos cuja única função era estudar a dor. Ele passou a acreditar que essas coisas não existiam por acaso. Existiam por alguma razão, por um bem maior. Existiam para aterrorizar. O terror era necessário. Protegia a Revolução. Sem ele, Lenin teria caído. Sem ele, Stalin teria caído. O medo era cultivado. O medo fazia parte do trabalho.”.

Smith retrata com extrema realidade o clima de sufocante insegurança em que vivia o povo soviético sob Stálin, onde até os componentes do sistema viviam inseguros, com medo da própria sombra. Nesse ambiente tenso e ansioso, até um pai podia denunciar um filho, ou uma filha denunciar uma mãe, correndo o risco de todos, inclusive a família (pais, avós, filhos e netos) serem condenados aos gulags enregelantes ou sumariamente à morte por traição ao regime e à pátria.

Então, em meio às denúncias da selvageria de um regime totalitarista, vão surgindo nos detalhes as sombras de uma história de suspense também regada a brutalidades e injustiças. Gera, então, uma investigação que reserva surpresas para o leitor, bem como traz um toque mais suave ao romance, evidenciando vários aspectos do amor entre os personagens. O protagonista, por exemplo, um eficiente e radical – ou até  brutal - agente do governo soviético, descobre que precisou acreditar no amor para se humanizar. Fato este que, apesar de todos os percalços, irá conduzir ao desfecho da história.

Um romance forte, contundente e um importante documento de denúncia, apesar de esconder em todo o seu enredo uma difícil – quase despercebida – história de amor.

Valdemir Martins

28.06.2026

* O Holodomor (termo ucraniano que significa "morrer de fome") foi uma grande fome provocada pelo regime soviético do ditador Stalin entre 1932 e 1933, que resultou num genocídio de milhões de ucranianos.

Fotos: 1. Capa do livro; 2. Os personagens principais; 3. A Lubjanka, o palácio da tortura; 4. A floresta onde eram encontradas as crianças; 5. O autor Tom Rob Smith.