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26 de ago. de 2026

O Rouxinol mostra-nos que o passado possui uma clareza que não vemos no presente.

Já li muitas obras que tratam ou apresentam perdas, mas este livro é uma obra prima de perdas. Falo de O Rouxinol, da competente norte-americana Kristin Hannah, autora best seller dos grandes jornais americanos. Um livro de memórias. E que, no melhor delas, vêm-nos as perdas a se infiltrar e a dominá-las. E as perdas na vida são irrecuperáveis, porém inesquecíveis.

O livro, numa pungente e belíssima história, é uma sequência de perdas que se inicia concomitante à Segunda Guerra Mundial, na horripilante e sanguinária invasão da França pelos nazistas. É nesse contexto que se desenrola a história de uma família que já vinha sendo então  destroçada desde a Primeira Grande Guerra.

A qualidade literária é plana, porém num texto de qualidade, bem estruturado, criativo e muito bem escrito. Envolvente, captura nossa atenção e ansiedade, prendendo-nos à leitura. Trata-se de um romance histórico notável, descrito numa deslumbrante linguagem cinematográfica.

Este livro que vendeu quase cinco milhões de exemplares traduzidos para 45 idiomas, apresenta-nos duas protagonistas. Irmãs de vidas radicalmente diferentes, heroínas cada uma à sua forma, afastadas, mas unidas pelo amor fraternal, familiar, consanguíneo. A principal delas é inspirada na história real de outra paladina, uma belga chamada Andrée de Jongh, que comandou o salvamento de mais de oitocentos pilotos, possibilitando que retornassem a voar para os aliados, combatendo novamente os nazis, assim tratados os alemães na obra.

Hannah tem o poder literário de construir personagens muito cativantes, conseguindo levar-nos até a simpatizar com um inimigo das protagonistas, este, um capitão nazista. Com a mesma força, choca-nos nas narrações das massacrantes caças e sanguinários e devastadores tratamentos aos judeus franceses. 

E, da mesma forma, apresenta-nos o impressionante e surpreendente trabalho dos grupos da Resistência Francesa, comandada por De Gaulle, a partir de Londres, em luta não só com os alemães, mas também contra os colaboracionistas franceses do submisso governo local sediada no sul do país, na cidade de Vichy.

Conforme os Aliados avançavam reconquistando territórios franceses, mais os alemães retaliavam com torturas brutais e morte de civis, nacionalistas e guerrilheiros locais. Hannah descreve-nos alguns desses episódios durante o romance, detalhando a tremenda brutalidade dos nazis numa feroz e selvagem reação ao princípio de sua derrocada. Dramáticos, chocantes.

Um livro ao tempo em que empolgante, belíssimo, é muito realista e por vezes pode levar às lágrimas leitores mais sensíveis. Uma obra de força descomunal naquilo que revela – em detalhes – sobre as verdades de uma guerra. Seus heróis e heroínas, suas incontáveis vítimas inocentes e seus monstruosos algozes. Um registro íntimo e perturbador da Segunda Guerra Mundial no âmago da França.

Valdemir Martins

04.04.2026

Fotos: 1. Capa do livro; 2. A fuga de Paris; 3. Racionamento e distribuição de alimentos; 4. A destruição das cidades no interior da França; 5. Membros da Resistência Francesa; 6. O Capitão nazista; 7. A autora Kristin Hannah.

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