Já li muitas obras que tratam ou
apresentam perdas, mas este livro é uma obra prima de perdas. Falo de O
Rouxinol, da competente norte-americana Kristin Hannah, autora best seller
dos grandes jornais americanos. Um livro de memórias. E que, no melhor delas,
vêm-nos as perdas a se infiltrar e a dominá-las. E as perdas na vida são
irrecuperáveis, porém inesquecíveis.
O livro, numa pungente e
belíssima história, é uma sequência de perdas que se inicia concomitante à
Segunda Guerra Mundial, na horripilante e sanguinária invasão da França pelos
nazistas. É nesse contexto que se desenrola a história de uma família que já vinha
sendo então destroçada desde a Primeira
Grande Guerra.
A qualidade literária é plana,
porém num texto de qualidade, bem estruturado, criativo e muito bem escrito.
Envolvente, captura nossa atenção e ansiedade, prendendo-nos à leitura.
Trata-se de um romance histórico notável, descrito numa deslumbrante linguagem
cinematográfica.
Este livro que vendeu quase cinco
milhões de exemplares traduzidos para 45 idiomas, apresenta-nos duas
protagonistas. Irmãs de vidas radicalmente diferentes, heroínas cada uma à sua
forma, afastadas, mas unidas pelo amor fraternal, familiar, consanguíneo. A
principal delas é inspirada na história real de outra paladina, uma belga
chamada Andrée de Jongh, que comandou o salvamento de mais de oitocentos
pilotos, possibilitando que retornassem a voar para os aliados, combatendo
novamente os nazis, assim tratados os
alemães na obra.
Hannah tem o poder literário de
construir personagens muito cativantes, conseguindo levar-nos até a simpatizar
com um inimigo das protagonistas, este, um capitão nazista. Com a mesma força,
choca-nos nas narrações das massacrantes caças e sanguinários e devastadores
tratamentos aos judeus franceses.
E, da mesma forma, apresenta-nos o
impressionante e surpreendente trabalho dos grupos da Resistência Francesa,
comandada por De Gaulle, a partir de Londres, em luta não só com os alemães,
mas também contra os colaboracionistas franceses do submisso governo local sediada
no sul do país, na cidade de Vichy.
Conforme os Aliados avançavam
reconquistando territórios franceses, mais os alemães retaliavam com torturas
brutais e morte de civis, nacionalistas e guerrilheiros locais. Hannah
descreve-nos alguns desses episódios durante o romance, detalhando a tremenda
brutalidade dos nazis numa feroz e selvagem reação ao princípio de sua derrocada. Dramáticos, chocantes.
Um livro ao tempo em que empolgante,
belíssimo, é muito realista e por vezes pode levar às lágrimas leitores mais
sensíveis. Uma obra de força descomunal naquilo que revela – em detalhes –
sobre as verdades de uma guerra. Seus heróis e heroínas, suas incontáveis vítimas inocentes e seus monstruosos algozes. Um
registro íntimo e perturbador da Segunda Guerra Mundial no âmago da França.
Valdemir Martins
04.04.2026
Fotos: 1. Capa do livro; 2. A fuga de Paris; 3. Racionamento e distribuição de alimentos; 4. A destruição das cidades no interior da França; 5. Membros da Resistência Francesa; 6. O Capitão nazista; 7. A autora Kristin Hannah.







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