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21 de jun. de 2026

Viaje pela polêmica Terra Americana.

A grande polêmica em torno da obra, o fato de ser considerada um dos melhores lançamentos de 2020 pela imprensa especializada norte americana e por ser qualificada como “extraordinária” por Stephen King, além de sua inclusão no seleto clube do livro da Oprah Winfrey, levou-me à leitura de Terra Americana , da ianque Jeanine Cummins. Não me arrependi. A obra começa impactante com toda a dramaticidade de um massacre em Acapulco.

A partir daí, entramos num espetacular suspense de fuga e sobrevivência, mostrando a real e atual força dos cartéis do narcotráfico que atuam pelas Américas e seus modos de agir. A obra constitui-se num thriller moderno brando, estruturado em flashbacks que dão consistência ao enredo. A base de tudo consiste no luto e na sobrevivência.

Seus protagonistas, duas irmãs adolescentes, um menino prodígio de oito anos e sua prudente e zelosa mamãe, cruzam o México num périplo maluco em busca da saída desapercebida e ilegal do país. Seus múltiplos personagens passantes são cativantes e de uma riqueza fabulosa, com fortes perfis psicológicos, os quais Cummins entremeia de forma bastante real e lógica na trama que tem em seu vilão um fértil enquadramento psicológico que oscila entre um poeta, um cavalheiro e o pior dos carrascos.

Assim como os protagonistas, sentimos os perigos nas sombras e há um peso que nos agarra e arrasta-se em  nossa mente por toda a leitura. Descrições de violência são o parâmetro para dar consistência às fugas de migrantes a partir do México para os Estados Unidos. São pessoas vítimas principalmente dos brutais narcotraficantes. E dessa forma a autora denuncia tantas barbaridades e irregularidades desses cartéis e de gangues mais poderosas que seus governos, espalhadas pela América Latina, em especial no México.

Mas o livro tem passagens encantadoras como a descrição de uma aldeia em Honduras, arrematada de forma belíssima pela autora com “e é assim que ele sabe que Rebeca é mágica, pois pode transportá-lo por milhares de quilômetros até seu próprio vilarejo nas montanhas apenas com o som de sua voz.”

O livro apresenta uma narrativa muito envolvente, levando o leitor a viajar e vivenciar a vida dos protagonistas de forma a não querer interromper a leitura. Trata-se de personagens que sofrem dificuldades inconcebíveis e que conseguem superar traumas extraordinários, em passagens de heroísmo e generosidade.

Milhares de migrantes, pessoas fugindo da violência e da pobreza, situações de suspense e de terror e um clímax robusto e agitado transformaram este excelente livro numa polêmica causa de discussão – principalmente dos ciumentos autores mexicanos que nunca se dignaram a escrever sobre o assunto – envolvendo a “autenticidade de uma história mexicana escrita por uma  estadounidense”, num inútil debate sobre apropriação cultural sem sentido. Todos se esquecem que é apenas uma peça de ficção e que, portanto, não exige esta ou aquela nacionalidade de seu autor.

O grande valor literário desta obra é a capacidade que Cummins tem de envolver o leitor em sua perfeita narrativa, clara, objetiva, despida de pretensões. Seu livro é viciante; diferente, surpreendente e emocionante em seus pontos mais estratégicos. Simples e magistral. Repetindo o mestre Stephen King, considero-o um livro extraordinário. Recomendo!

Valdemir Martins

02.02.2026

Fotos. 1. Capa do livro; 2. A orla de Acapulco; 3. Mosteiro que abriga fugitivos; 4. Viagem no teto do trem; 5. A fronteira no deserto; 6. O terrível terreno do deserto americano; 7. O descanso do grupo; 8. A autora Jeanine Cummins.

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