A grande polêmica em torno da
obra, o fato de ser considerada um dos melhores lançamentos de 2020 pela
imprensa especializada norte americana e por ser qualificada como
“extraordinária” por Stephen King, além de sua inclusão no seleto clube do
livro da Oprah Winfrey, levou-me à leitura de Terra Americana , da
ianque Jeanine Cummins. Não me arrependi. A obra começa impactante com toda a
dramaticidade de um massacre em Acapulco.
A partir daí, entramos num espetacular suspense de fuga e
sobrevivência, mostrando a real e atual força dos cartéis do narcotráfico que
atuam pelas Américas e seus modos de agir. A obra constitui-se num thriller moderno brando, estruturado em flashbacks que dão consistência ao
enredo. A base de tudo consiste no luto e na sobrevivência.
Seus protagonistas, duas irmãs adolescentes, um menino prodígio
de oito anos e sua prudente e zelosa mamãe, cruzam o México num périplo maluco
em busca da saída desapercebida e ilegal do país. Seus múltiplos personagens
passantes são cativantes e de uma riqueza fabulosa, com fortes perfis
psicológicos, os quais Cummins entremeia de forma bastante real e lógica na
trama que tem em seu vilão um fértil enquadramento psicológico que oscila entre
um poeta, um cavalheiro e o pior dos carrascos.
Assim como os protagonistas, sentimos os perigos nas sombras
e há um peso que nos agarra e arrasta-se em
nossa mente por toda a leitura. Descrições de violência são o parâmetro
para dar consistência às fugas de migrantes a partir do México para os Estados
Unidos. São pessoas vítimas principalmente dos brutais narcotraficantes. E
dessa forma a autora denuncia tantas barbaridades e irregularidades desses
cartéis e de gangues mais poderosas que seus governos, espalhadas pela América
Latina, em especial no México.
Mas o livro tem passagens encantadoras como a descrição de
uma aldeia em Honduras, arrematada de forma belíssima pela autora com “e é
assim que ele sabe que Rebeca é mágica, pois pode transportá-lo por milhares de
quilômetros até seu próprio vilarejo nas montanhas apenas com o som de sua voz.”
O livro apresenta uma narrativa muito envolvente, levando o
leitor a viajar e vivenciar a vida dos protagonistas de forma a não querer
interromper a leitura. Trata-se de personagens que sofrem dificuldades
inconcebíveis e que conseguem superar traumas extraordinários, em passagens de
heroísmo e generosidade.
Milhares de migrantes, pessoas fugindo da violência e da
pobreza, situações de suspense e de terror e um clímax robusto e agitado
transformaram este excelente livro numa polêmica causa de discussão –
principalmente dos ciumentos autores mexicanos que nunca se dignaram a escrever
sobre o assunto – envolvendo a “autenticidade de uma história mexicana escrita
por uma estadounidense”, num inútil debate sobre apropriação cultural sem
sentido. Todos se esquecem que é apenas uma peça de ficção e que, portanto, não
exige esta ou aquela nacionalidade de seu autor.
O grande valor literário desta obra é a capacidade que
Cummins tem de envolver o leitor em sua perfeita narrativa, clara, objetiva,
despida de pretensões. Seu livro é viciante; diferente, surpreendente e
emocionante em seus pontos mais estratégicos. Simples e magistral. Repetindo o
mestre Stephen King, considero-o um livro extraordinário. Recomendo!
Valdemir Martins
02.02.2026
Fotos. 1. Capa do livro; 2. A orla de Acapulco; 3. Mosteiro que abriga fugitivos; 4. Viagem no teto do trem; 5. A fronteira no deserto; 6. O terrível terreno do deserto americano; 7. O descanso do grupo; 8. A autora Jeanine Cummins.








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