Livros de autores chineses que li sempre me agradaram
bastante. Cito obras maravilhosas como As
Boas Mulheres da China e O que os
Chineses não Comem (Xinran), A
Montanha e o Rio (Da Chen – veja meu comentário em https://contracapaladob.blogspot.com/2022/01/a-montanha-e-o-rio-nivelados-pela-vida.html ), Adeus, China – O Último Bailarino de Mao (Li Cinxin), Azaléia Vermelha ( Anchee Min), entre
outros. Todos, de modo geral, têm as mesmas características ambientais,
principalmente porque se passam, via de regra, nos milhares de povoados espalhados
pelo território chinês.
Outra obra com as mesmas características, porém com a adição
inteligente e recheada de história, mitos populares e contemporaneidade, é a laureada
As
Rãs, do Prêmio Nobel (2012) Mo
Yan. Seu
estilo é comparado ao realismo mágico do colombiano Gabriel García Márquez, mas obviamente sem
latinidades e com muito das riquíssimas cultura e história da China.
Boa parte das obras chinesas contemporâneas transcorre – ou
faz um pit stop - nos períodos de
mudanças mais recentes do sistema político chinês e principalmente durante a
chamada Revolução Cultural. Neste caso, em narrativa epistolar, Yan principia
celebrando a vida numa época de mudanças importantes das práticas médicas
ocidentais invadindo a China. E assim este brilhante livro começa a discorrer insistente
e ironicamente sobre a vida.
O exaustivo discurso comunista de que o Ocidente liderado
pelos norte-americanos é mau e vai invadir a China a qualquer momento é
resiliente. Mas, faz parte intrínseca da história da China. No entanto, de
forma brilhante Yan coloca-nos rigorosamente defronte à estupidez humana, seja
pela guerra entre nações, seja pelo extremismo de ditaduras radicais ou mesmo
pela própria cobiça e egoísmo humanos.
O controle da natalidade chinês com a política de filho único
vigorou por 43 anos, de 1970 a 2013, quando foi liberada para dois filhos, devido
ao envelhecimento populacional. O controle foi rigoroso, trágico e violento e é
sobre essa dramática e homicida cicatriz na história da China que trata este
romance incrível de Mo Yan. Segundo os chineses esse capítulo contribuiu para o
desenvolvimento não só da China como de todo o mundo, pois afinal todos
dependem dos recursos naturais do planeta e uma superpopulação seria desastrosa
para a sobrevivência dos povos.
E é a partir desse princípio dantesco (sempre criticado pelos
ocidentais) que se baseia hoje toda a orientação política da Nova Ordem Mundial
e dos megacapitalistas - ironicamente antagônica aos eurasianos da China e da
Rússia - que prevê uma drástica redução populacional no mundo para que se
obtenha um controle mais efetivo dos recursos naturais e, claro, da própria
população. Calcula-se que mais de 450 milhões de pessoas deixaram de nascer na
China naquele período, nação que hoje abriga mais de 1,3 bilhões de pessoas, a segunda
maior população mundial após a Índia (1,4 bilhões).
Assim torna-se importante a leitura de As Rãs para termos um parâmetro talvez de nosso futuro refletido a
partir da política do filho único chinês, claro, sem os provincianismos
brilhantemente elaborados pelo autor.
De um passado recente aos dias atuais, a obra inicia sua
segunda parte com os protagonistas já idosos e, como no peso da idade, a
narrativa torna-se mais lenta e ingressa, em alguns trechos, numa fase de
romance de formação, com extensas narrativas sobre situações, locais, alimentos
e personagens. E, a seguir, a um aborrecido texto de teatro que, ao passar para um
surrealismo mais dinâmico, via realismo mágico, resume o âmago da obra e finaliza com um julgamento
de uma das principais protagonistas da trama. E, inegavelmente, à política do
filho único implantada pelo governo comunista chinês, trazendo as estúpidas rãs
simbolizando a estupidez humana.
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Valdemir Martins
26.05.2023
Fotos: 1. capa do livro; 2. Localização de Gaomi, cidade natal do autor; 3. A campanha de filho único da Revolução Cultural; 4. A tia obstetra do Partido; 5. Mao Tse Tung; 6. O ranário; 7. Gaomi hoje; Mo Yan.
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