Os governos totalitários sempre nos negaram acesso a obras literárias incrivelmente grandiosas e belas. Os casos são muitos, principalmente os proibidos pela Inquisição Católica, pela censura real britânica, por preconceitos sexuais e ideológicos, pelo radicalismo islâmico e, principalmente, pelos países ditatoriais de esquerda a partir do século passado. Que me lembre, isso aconteceu com O Amante de Lady Chatterley, O Retrato de Dorian Gray, A Origem das Espécies, 1984, Comédia em Tom Menor, Lolita, Os Versos Satânicos, Arquipélago Gulag, Doutor Jivago, Dias Malditos, Ulisses e Dom Casmurro entre muitos outros.

Mais recentemente, descobri outra grandiosa obra penalizada: As Brasas (título brasileiro) ou As Velas Ardem até ao Fim (título português), do escritor e jornalista Sándor Márai - nascido na Hungria, numa cidade hoje pertencente à Eslováquia -, e proibido pelo regime do autoritário regente Miklós Horthy, durante o domínio comunista soviético na Hungria após a Segunda Guerra Mundial. Comparado por alguns estudiosos ao mestre alemão Thomas Mann, Márai foi obcecado pelo cuidado em descrever corretamente o que queria expressar.

Nesta obra o autor brinda-nos com a história de dois amigos que foram inseparáveis na infância, apesar de suas diferenças sociais. Quarenta e um anos após o sumiço de um deles, ambos reencontram-se para travar um duelo ferrenho de palavras, entremeado pela sombra da falecida esposa de um deles . E aí reside o fulcro de todo o brilhantismo deste livro e do talento de Márai. Ao lê-lo, de imediato percebe-se sua qualidade literária que nos traz um texto denso - não pesado - em conteúdo, criatividade, expressão poética e caracterização temporal.

Um enredo aparentemente simples, de contexto profundo por abordar temas complexos como amizade, paixão, traição e honra, de uma forma delicada, porém penetrante. Ao tratar de relações de pessoas a partir do afeto, Márai mergulha nos comportamentos dos dois protagonistas, observando a multiplicidade de significações dos mesmos, brindando-nos com situações e diálogos brilhantes. Após a juventude e por vinte e um anos afastados, a dupla reencontra-se depois de vivências díspares durante esse distanciamento. Seu reencontro é o âmago desta obra.

A história do talento de Sándor Márai é exemplo de como um grande escritor, mesmo com uma extensa obra publicada e aclamada, pode ser injustamente colocado no ostracismo em função de convicções ideológicas e posicionamento político. Mas, para a sorte de quem aprecia grandes obras, Márai foi resgatado. E esta suntuosa obra literária felizmente está à disposição. Basta lê-la e sentir o calor da escrita do talentoso Márai, seja pelas brasas, seja pelas velas!
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Valdemir Martins
24.08.2025
Fotos: 1. Capa do livro; 2. Capa da edição portuguesa; 3. O salão da mansão; 4. O reencontro; 5. O autor Sándor Márai.